Abriu os olhos devagar, após espreguiçar-se devidamente e bocejar um bocejo comprido, preguiçoso.
Ainda ficou cerca de cinco minutos deitado, pensando no nada com a mão sobre o peito, somente sentindo o bum-que-bum do coração que batia forte. Era aquele o dia, o dia de sua escolha, apesar de ter quase certeza de que não estava pronto para decidir nada.
Sentou-se e ficou olhando para a parede azul de seu quarto, as malas estavam sob a cama, e não eram exatamente malas, sua bagagem consistia somente numa mochila de costas em tamanho médio, toda colorida e cheia de enfeites. Na parte mais alta desta, uma etiqueta costurada por sua tia. ‘Henrique Pedro’ tinha ali, um nome comum que ele odiava, mas era seu e não poderia mudar.
Os passos até a porta do banheiro foram preguiçosos e arrastados, trancou-se ali dentro, mesmo que o banheiro fosse somente seu. Sentou sob o chuveiro ligado, deixando a água fria correr seu corpo magro e marcado por uma ou outra cicatriz de infância.
Era moreninho, sutilmente moreno, talvez um pouco pálido por não tomar sol constantemente. Os cabelos eram compridos e bem lisos, herança de seus antepassados indígenas. Os olhos eram bem grandes e redondos, pretos como os cabelos.
Levantou e desligou o chuveiro, indo pingando mesmo até o quarto, vestindo – apesar de estar molhado – a camisa, a roupa íntima e a calça que tinha escolhido, exatamente nesta ordem.
O que fez em seguida fora o que qualquer pessoa que iria viajar faria, penteou-se, escovou os dentes e guardou a escova na mochila, colocou os sapatos nos pés e a sandália na bolsa. Soltou um suspiro longo, saindo de casa e levando consigo uma chave.
Sua tia já estava avisada de que iria viajar, ela não reclamou, era um garoto afinal, não precisava assim de tantos cuidados... Olhou a porta de sua casa e partiu, andando até a estação ferroviária, que ficava a alguns quilômetros de sua casa.
“É complicado, estou completamente confuso com tudo isso... Mas a esta altura não desistirei, claro que não, não depois do que construí até agora. “
O trem era confortável apesar de barulhento, ao menos era quente, onde contrastava com a temperatura fria... Maldito inverno, era o que pensava.
Os olhos fitavam a paisagem através do vidro, ali ele colou o rosto, respirando longamente, o sono foi inevitável. Só acordou com o apito do trem, avisando que estava na estação final, e era ali onde ficaria.
Bocejou espreguiçando-se novamente, saindo do trem e olhando em volta, procurando quem deveria estar lhe esperando. Arqueou as sobrancelhas, não via ninguém... Mas estava tudo certo para ele estar lhe esperando, onde estaria?
Quando a preocupação aumentou e ele pensou em arrumar uma forma de ligar ao outro, sentiu o corpo ser abraçado por trás e os olhos serem tapados por uma mão quente.
O sorriso apareceu imediatamente no rosto e os músculos relaxaram, colocou as mãos sobre a do outro.
- Adivinha quem é...
A voz soou por seus ouvidos e ele se arrepiou, Henrique não lembrava a quanto tempo estava esperando sentir aquele contato e ouvir a voz do outro assim tão próxima.
Eles haviam se conhecido pela internet. Aos poucos descobriram como tinham semelhanças a começar pela idade...
Ambos tinham dezessete anos completados recentemente, ambos tinham os cabelos compridos, apesar de Henrique tê-los pretos e lisos e David manter os seus naturalmente cacheados e um tanto mais claros... Os dois tinham alguns problemas familiares, os dois tinham problemas com a sua sexualidade – apesar de David já ter namorado com homens, o que Henrique não tinha feito -, tinham a pele amorenada, tinham os olhos grandes e escuros... E se amavam de uma forma simplesmente absurda!
Não, não eram namorados, na verdade, um tanto longe disso...
- Lindo!
Eram melhores amigos.
- Bobo.
Se abraçaram. Henrique – que era pelo menos dez centímetros mais baixo que David – deitou a cabeça no ombro do amigo, e sabe-se lá quanto tempo ficaram se amassando na estação ferroviária, só lembraram de parar quando a chuva caiu soberana ali e começou a molhar os amigos.
David pegou o menor pelo braço e foi andando com ele até a parte coberta da estação, onde ligou pelo celular para seu pai e pediu para este buscá-los.
Enquanto esperavam conversavam banalidades e se alisavam, tocavam as mãos, os rostos um do outro e trocavam alguns selinhos quando não tinha ninguém olhando.
Henrique não morava assim tão perto do maior, na verdade ele tivera muita sorte pois sua família se mudou, assim ele ficou a somente cinco horas de distância de seu amigo. Eles se falavam todos os dias, soltavam piadas, diziam que queriam casar um com o outro, planejavam a futura casa que pertenceria aos dois... Era algo muito bonito, puro e simples.
Quando um estava triste o outro sentia, e lutava contra tudo e todos para a felicidade alheia.
-Eu ainda não acredito que finalmente nos vimos de verdade... – Falou o mais baixo, sorrindo um tanto bobo, dando um soco de leve na perna do outro, que estava bem mais agasalhado.
- A ficha para você nunca cai, fofo.
- Você disse para o seu pai que eu iria vir, não disse?
-Yeah.
E brincaram mais um tanto. Quando David disse que seu pai já deveria estar chegando, a postura de ambos modificou-se completamente, conversavam discretamente, pareciam mais sérios... Henrique não queria colocar em risco a máscara que David manteve desde sempre colada no rosto, seu pai não podia nem sonhar que ele ficava com outros meninos, ninguém sabia como ele reagiria... Apesar de já ter comentado abertamente que tinha nojo de homossexuais.
Levantaram ao ouvir a buzina e foram andando até o carro. Henrique pegou a mochila, colocando-a no porta-malas, acomodando-se depois ao lado do maior no banco de trás. Sorriu para o pai de seu amigo apesar de em seguida recolher-se um tanto, vermelho de vergonha.
Até o apartamento em que David morava, todos três dentro do carro ficaram num silêncio quase sepulcral, cada um imerso em seus próprios pensamentos.
Henrique passava as mãos nos próprios braços, sentindo o frio horrível em seu corpo, amaldiçoando-se por não ter pego o casaco.
David olhava de canto para o menor, mordendo o lábio inferior por causa da vontade que tinha de abraçar e aquecer o amigo.
E o pai do David... Estava preocupado com os seus assuntos, coisas que bem, seriam assunto para uma outra história...
Chegaram no apartamento e subiram uma série de escadas – só os dois garotos, o pai do maior dissera que tinha que comprar o jantar.
- Frio, frio, frio, friiio... – Henrique reclamou, colocando a mochila no chão do quarto do rapaz de cabelos encaracolados.
- Ohh... Momoo... – David pulou sobre o menor, abraçando-o e afagando suas costas.
Ele achava engraçado como o outro menino podia ser magrinho e pequeno, por isso sempre tivera vontade de abraçá-lo, e agora que podia não queria mais desgrudar dele.
- Oiii...
Sempre a mesma agonia, da mesma forma que se tratavam pela internet, se tratavam pessoalmente, apesar de que frente a frente poderiam se agarrar de verdade, se beijar de verdade.
Os dois sentaram na cama do maior, ficaram ainda um bom tempo em silêncio, abraçados.
O menor sentia o calor do outro em seu corpo, o outro sorria um sorriso bobo, pela sensação boa que era proteger alguém.
- Bebê... – David chamou o pequeno manhosamente, apertando-o mais entre os braços. – Como você está com aquele outro...?
- .............. – Aquietou-se, deitando a cabeça no ombro do maior. – Como eu te disse... Ainda estou muito confuso...
- Aham... Está sendo bobo também, você sabe...
- Sei sim, mas a gente não escolhe de quem gosta, se não... Eu ia escolher você, Dêê...
- É...
Henrique estranhou a falta de humor do outro, mas simplesmente esfregou o rosto no peito dele, como um filhote manhoso.
- Dêêê... – Chamou-o, ouvindo o risinho dele. – Eu estou carente...
- Eu também estou, bebê...
Aquele assunto doía nos dois.
O menino com traços indígenas era... Perdidamente apaixonado por alguém. Um garoto que conhecera pela internet, assim como conhecera o David. Nunca tinha ficado com garotos, nunca tinha sequer pensado no assunto homossexualismo, o menor era bem decidido, pelo menos até começar a conversar com o Pi.
Pi logicamente era só um codinome para um rapaz – já adulto, que era muito íntimo do baixinho. O nome verdadeiro dele era Marcelo.
Marcelo tinha quase vinte e cinco anos, era hétero, já tinha namorado com muitas mulheres apesar de não manter relacionamento duradouro com nenhuma delas... Conhecia Henrique a mais de três anos, sempre soltava brincadeiras maliciosas para cima dele, sempre pedia conselhos a ele, sempre conversava com ele.
Os dois se entregavam um ao outro de tal forma quando conversavam, que quem não os conhecesse, diria que eram namorados.
Aí estava o problema.
Mas porque?
Porque o pequeno, após um tempo, começara a cair de amores pelo maior, e não fazia ideia de como se comportar, já que tinha certeza de que o outro era hétero, e tinha vergonha demais para falar a ele o que sentia na verdade.
A saída era desabafar com o David, contar a ele tudo o que sentia e trocar conselhos com ele.
Para David, ouvir o outro falar de quem ele amava era extremamente doloroso, já que só queria seu bem, completamente, absolutamente, era muito preocupado com ele.
- Você contou ao Pi que viria para cá?
- Contei... – A essa altura ambos já estavam deitados e agarrados na cama, trocando selinhos eventualmente. – Sabe que não consigo esconder nada dele.
- E o que ele disse? – O de cabelos cacheados se inclinou um pouco, beijando o pescoço do menor.
- Ficou com ciúmes, ficou triste...
-Pff... – Deu de ombros, apertando mais o Henrique entre os braços. – Você não quer mais casar comigo, não é, momo...
- ..........OHHH, não diga isso!!!
E estavam eles novamente se amassando, até que por um pouco de senso sentaram-se e o mais alto foi buscar alguns desenhos para mostrar ao de traços indígenas.
xXx
Oi diário...
O David está no banho, eu estou agora jogado sobre a cama dele escrevendo em você. Está doendo, sabia? Eu sei que gosto muito do Pi, mas sinto uma coisa muito forte pelo David...
O problema é que conheço o Pi a quase quatro anos, gosto dele desde que me lembro, já o Dê eu só o conheço a cerca de um ano...
Eu não me entendo.
Achava que o que tenho aqui dentro seria sempre entregue ao meu Pi, sim, porque ele vai ser sempre meu...
.....................................
O chuveiro foi fechado, espera que vou guardar você no bolso escondido da minha mochila, eu estaria ferrado se alguém encontrasse você.
- Henrique Pedro ----------x
E fingiu que estava dormindo após ensocar o diário dentro da mochila.
Estava com seu pijama favorito, aquele verde e cinza completamente básico, sem nenhum detalhe a mais. Esparramado na cama de solteiro com a boca entreaberta e os olhos fechados, estava com uma expressão angelical, era um ótimo ator. O peito levantava e descia lentamente, num compasso lânguido, convidativo.
David saiu do banheiro ainda molhado, usando só uma bermuda. Trancou a porta delicadamente e ajoelhou-se ao lado da cama, segurando os cabelos molhados e inclinando-se na direção do pequeno, beijando seu pescoço tantas vezes que era até difícil contar. Ficou beijando-o até que ele se remexesse de cócegas.
- Bobo...
Murmurou rindo do menor, subindo nele e sentando sobre o seu abdômen, atacando-lhe a boca com um beijo voraz.
Quando estava daquela forma com o David, Henrique poderia esquecer da dor que apertava seu peito todo o tempo, ele poderia esquecer um tanto do Pi e dar atenção a seu amigo.
Estava sendo terrível em suas atitudes, tudo o que fazia era pensando em sua própria dor e desespero, estava sendo egoísta, mesmo sabendo que o amigo tinha tantos problemas quanto ele mesmo... Mas não podia resistir, era egoísta e mesquinho por natureza, fazia parte de seu interior, se tornara uma característica imutável.
As mãos de dedos finos foram até as costas do mais alto e puxaram-no mais para si, somente para ter o corpo alheio em cima do seu, já que o beijo havia sido encerrado a pouco.
-Você me acordou... – O menor mentiu, reclamando.
-Mentiroso! – Bradou de imediato. – Você estava rindo de canto...
- Mas e se eu tivesse tendo um sonho bom...?
- Com o sorriso que você estava, eu só precisaria olhar para sua parte baixa do seu pijama, para saber se era verdade.
-Sa-fa-do.
Escutaram a porta do apartamento ser aberta e imediatamente desgrudaram-se, não lembrando que tinham trancado a porta do quarto. Depois do susto começaram a rir um tanto baixo.
- Se você tivesse dado duas voltas na chave, David, nós não teríamos nos assustado...
-Isso é mentira também, seu safado. Queria ficar agarrado em mim, não era? – Perguntou baixinho, para seu pai não ouvir.
O menor simplesmente mostrou a língua, sentando enquanto o outro abria o armário e procurava alguma coisa.
- Que está procurando?
- Uma roupa... Vamos sair.
- Mas eu já estou de pijama! – Encolheu-se, cobrindo o corpo com o cobertor grosso.
-E daí? Vá vestir outra coisa e se arrume... Vamos conhecer alguns de meus amigos no caminho para o cinema.
- ....................... – Henrique baixou só um pouco o cobertor, deixando seus olhos grandes de fora. – Cinema?
O outro só sorriu de canto, concordando com a cabeça, começando a gargalhar enquanto via Henrique levantar desesperadamente e se ajoelhar ao lado da mochila, jogando algumas calças e camisas sobre a cama, indeciso quanto a qual escolher.
Não levara muitas roupas, já que só iria passar cerca de uma semana com o outro, depois logicamente teria que voltar para casa.
- Qual dessas? – Apontou as blusas, enquanto via o outro já pronto.
- Melhor pegar algo mais quente...
- Balela, não vou sentir frio!
- Se você diz... Vai com a preta. – Apontou.
- Qual das pretas? – Fez cara de tacho, segurando as blusas escuras que tinha levado.
- A lisa. – Deu de ombros.
- Certo!
Despiu-se rapidamente e vestiu a blusa escolhida pelo outro, uma calça da mesma cor com algumas fivelas e um sapato também preto, com alguns detalhes em branco e vermelho... Parecia estar pronto. Virou-se para encarar o mais alto, que estava sentado na cama com um dos cotovelos sobre os joelhos e o rosto apoiado na mão, olhando-o com um sorriso completamente bobo no rosto.
Henrique corou de vergonha imediatamente, colocando as mãos nas bochechas quentes.
- Não olhe assim!
- Assim como? – Gracejou David, levantando e indo até o menor, parando a sua frente.
- Assim como você está me olhando... Seu bobo.
- Mas eu gosto de te olhar assim, não posso? – Agarrou-o pela cintura, baixando um tanto o rosto para beijar o pescoço nu.
O de cabelos pretos arrepiou-se, segurando nas roupas de seu amigo. David estava bem mais quente, estava com uma calça pesada, coturnos e além de uma camisa preta um casaco um tanto grande, mais parecia um sobretudo cheio de botões e bolsos.
- Pode... – Fechou os olhos e sorriu.
E foi beijado. E se beijaram mais sabe-se lá quantas vezes, até que decidiram sair mesmo.
Henrique não resistia a nada ao ouvir a palavra cinema. Na verdade, havia uma série de palavras que o fazia estremecer nas bases e aceitar quase qualquer coisa.
Cinema.
Zoológico.
Parque.
Doces.
Não só essas, também haviam outras, mas digamos que estes eram os tópicos principais de sua lista de coisas que não poderia deixar de fazer.
O cinema e o zoológico era porque só tinha ido a algum deles uma ou duas vezes, e estas tinham sido experiências maravilhosas, coisas que ele gostaria de repetir.
Saíram do apartamento e começaram a andar pela cidade, um ao lado do outro indo em direção ao cinema, que não ficava exatamente perto. No caminho até lá, Henrique conhecera alguns dos amigos de David, gostando de uns e se assustando com outros, mas fora algo divertido, apesar de sempre ficar com vergonha de falar com eles.
Nenhum ia para o cinema, na verdade eles estavam indo a uma festa, tanto que até chamaram o mais alto e seu ‘amigo baixinho’, mas disseram-lhe que estavam indo ao cinema, e que depois se tivessem tempo passariam por lá.
Henrique queria assistir a um filme de terror, David disse-lhe que não aguentaria e que ficaria com medo, como sabia que o menor iria ficar. Mesmo.
Depois de muita insistência do pequeno, ambos foram para uma daquelas salas, a que exibiria um filme de terror e suspense e acomodaram-se bem atrás, onde não tinha muita gente.
Não era estreia do filme, era na verdade uma das últimas exibições dele, por isso não tinha muita gente no cinema, quando a película começou Henrique se encolheu um pouco e o maior foi lhes comprar pipocas e refrigerantes. Quando voltou, o garoto estava com as mãos sobre os olhos, assistindo a tudo pela brecha de seus dedos. O outro riu e sentou-se do lado.
- Bu.
O menor ficou assustado e olhou para ele com os olhos arregalados, ficando mais calmo quando David riu baixinho.
- Ah seu filho da mãe...
- Estava tão concentrado que não pude resistir...
E começou a comer pipoca, puxando Henrique pelo braço e forçando algumas na boca do garoto, ao que este comeu sem tirar os olhos da tela enorme.
Ele estava completamente perdido em meio aos enigmas do filme, tanto que nem percebia o sorriso malicioso de seu amigo, que dava de ombros quanto ao filme – já tinha baixado e assistido todos mesmo...
O de cabelos cacheados foi deslizando a mão pela divisória da cadeira, tocando com a ponta dos dedos a coxa do menor, que se assustou mais uma vez e encolheu-se.
- Para com isso, quero assistir o filme... – Henrique fez um biquinho.
- Certo, vossa majestade, pararei. – Murmurou, revirando os olhos.
Mas sua mão continuou ali, e aos poucos corria pela coxa do garoto, alcançando-lhe a virilha.
O menino arregalou os olhos, fitando a própria perna e vendo as perversões que seu amigo planejara. Estreitou os olhos, mas teve que sorrir perante a cara de cachorro sem dono que fizera.
Engoliu a seco e disse a si mesmo que assistiria ao filme e não ligaria para aquela mão entre suas pernas.
Mão esta que cada vez apertava mais o que tinha por baixo dos panos, que descia pela coxa provocando e que voltava a subir, indo até o cós da calça e abrindo o botão.
- D—David... – Olhou-lhe com o rosto vermelho de vergonha.
- Oi, meu lindo. – Gracejou, mordendo o lábio inferior.
Henrique se via numa situação deveras complicada, uma vez que não poderia reclamar com David já que faria barulho e todos olhariam para si. Não podia também deixar ele se aproveitar, não num lugar cheio de gente.
Colocou uma das mãos sobre a boca, sentindo o baixo-ventre arder ao ser tocado diretamente pelo maior. Estava ficando excitado! E sabia porque... Estava num lugar cheio de gente, estava sendo abusado num lugar cheio de gente. E como era essencialmente exibicionista, não podia controlar sua natureza, acabava ficando ainda mais ‘animado’ por pensar que os outros podiam vê-los a qualquer momento.
Segurou na gola de sua própria camisa, sentindo um calor absurdo subir desde entre suas pernas até sua nuca, fazendo o garoto começar a suar.
A mão do mais atrevido abriu o botão, baixou o zíper e enfiou-se na cueca do mais novo, puxando para fora seu membro que estava realmente bem rígido. David riu baixinho, não achava que ele já deveria estar naquela situação, o rosto estava voltado para a tela enorme do cinema, mas aquela mão – aquela pervertida mão – circundava o sexo do menor e começava a massageá-lo calmamente, de cima a baixo, tantas vezes que Henrique tinha que segurar o próprio pescoço para não soltar barulho algum.
Agora estava – literalmente - nas mãos do maior.
- Porque não... – David começou, sorrindo, ainda olhando para a tela. - ...faz o mesmo?
- P—Podem nos ver... – Colocou uma das mãos sobre a boca e olhou em volta, estavam muito concentrados no filme.
- Você não gosta disso?
Henrique não sabia o que dizer. Ele gostava da sensação do perigo, mas tinha medo também, e nunca... Ninguém nunca tinha feito ‘aquilo’ para ele.
Desceu com uma das mãos até as pernas do mais alto, dedilhando-as calmamente, olhando para o lado oposto enquanto subia até a virilha como David fizera antes consigo. Escutou um suspirar vindo dele e ficou até mais aliviado, afinal ficava feliz de saber que ele estava gostando daquilo.
Abriu a calça de tecido pesado e burlando a roupa íntima do outro tirou-lhe o membro dali, assustando-se ao fitá-lo de canto.
Eles tinham praticamente a mesma idade, como poderiam seus corpos serem tão diferentes?
Remexeu-se, sentindo ainda a mão do outro contra o meio de suas pernas, mas estava destinado a causar-lhe as mesmas sensações e a vergonha que tivera. Soltou-lhe o membro e lambeu demoradamente a palma da mão, voltando para ele e começando um deslizar inconstante. Ele sentiu que o maior não estava com tanta força nas mãos, na verdade ele suspirava um tanto alto, eram quase gemidos. David não tinha vergonha?
Quando pensou em indagar-lhe isso, foi puxado para perto dele. O garoto de cabelos cacheados bateu na divisória das cadeiras, fazendo-a levantar, tendo um acesso mais simples ao menor. Puxou-se para bem perto e roubou um beijo demorado, que Henrique retribuiu com gosto. Uma das mãos segurava o rosto dele, a outra puxava sua calça para baixo, ao que o pequeno segurava nos ombros daquele que o estava abusando.
Quando Henrique percebeu, sua calça já estava no meio das coxas e suas nádegas estavam sendo apertadas pelo outro. Todo o corpo do menor estava arrepiado, estava quente também.
O beijo foi partido, mas o maior não parecia querer parar por ali, ele desceu pelo rosto do outro garoto com beijos molhados, escorregou até seu pescoço, numa trilha quente, cheia de lambidas, beijos e mordidas. Afastou-se ao dar de cara com aquela camisa.
- D...David... – O corpo do garoto estava ardendo.
- Nós vamos... Parar por aqui. – O maior falou com a voz um tanto gemida.
- O-O QUE? – Falou tão alto que várias pessoas viraram-se e fitaram os garotos quase atracados. A sorte deles era que não podiam ver da cintura para baixo deles, por causa dos assentos da frente.
Henrique ficou tão desesperado com aqueles olhares que rapidamente arrumou-se, colocando o membro – ainda rígido – para dentro da calça, fitando o maior com os olhos arregalados.
David não parecia nem um pouco incomodado, se masturbava descaradamente, mordendo os lábios para não deixar escapar nenhum barulho. Virou o rosto para o outro e lhe sorriu pervertido, aumentando o ritmo dos movimentos até que manchasse as costas da cadeira da frente com o resultado de tanta provocação. Pegou alguns guardanapos e limpou-se, arrumando as calças em seguida, beijando o rosto do menor.
O garoto de cabelos lisos e longos estava pasmo, ainda estava desconfortável com aquilo contido entre as pernas, como o outro podia no meio do cinema fazer uma coisa dessas?
Baixou o rosto um tanto sem graça, ao que o maior levantou, segurando-o pelo braço com a mão limpa, arrastando-o para fora daquela sala de exibição e fechando-se num dos banheiros do lugar.
- O que... O que quer fazer? – Perguntou segurando a calça sobre o volume do meio das pernas.
O maior somente sorriu e o empurrou numa das cabines, o fazendo ficar de pé em cima da tampa do vaso sanitário. Baixou-lhe a calça rapidamente, arrastando junto à roupa íntima, segurando o membro do garoto com uma das mãos, massageando-o.
As mãos do menor foram parar nos cabelos do outro, precisava segurar-se em algo afinal. David abaixou-se somente um pouco, passando a ponta da língua no que segurava. O garoto arqueou-se um tanto por causa daquele contato, algo diferente que ele nunca tinha provado... E como era bom, enquanto sentia sua intimidade ser envolvida com a língua do outro, Henrique divagava, perdia-se nas novas sensações.
O formigamento entre as pernas dado por conta do prazer o fazia tremer, agarrar os cabelos do mais alto e pedir, com a voz por um fio para que ele aumentasse o ritmo daquilo, para que ele o envolvesse por completo.
O menor estava a ponto de gemer um tanto alto quando ouviu a porta do banheiro ser aberta, abaixando a cabeça para que não o vissem por cima das divisórias. David não parava, pelo contrário, respondendo as vontades do garoto, ele abriu a boca e tomou-o de vez, acomodando-lhe o membro na boca, afastando a cabeça num vai-e-vem preciso, onde parava vez ou outra para sugar a ponta do que tinha em mãos.
O moreninho puxou os cabelos do outro com mais força, lutando contra os gemidos, contra suas vontades para fazer silêncio e não chamar a atenção de ninguém. Mas aquilo era quase impossível, o outro estava deixando ele louco, arrancando qualquer resquício de sanidade com aquela boca pervertida.
O homem que fora ao banheiro saiu logo depois de lavar as mãos, deixando-os sozinhos novamente, agora si Henrique suspirava baixo, chamando pelo nome do mais alto, querendo sair logo daquele abismo de prazeres, que estava deixando-o tonto.
Tremeu um pouco mais, perdendo quase que completamente a força nas pernas, sentindo que tudo estava centrado em seu baixo ventre. Emitiu um ruído rouco, deliciado quando percebeu estar se derramando contra a boca do maior, que teve certo trabalho para sorver aquilo, mas que conseguira engolir grande parte.
Sentou no vaso sanitário ainda fechado enquanto arrumava as calças e olhava o rosto do outro, o vendo limpar a boca do que não pudera engolir. Tremeu diante daquela visão, segurando nas próprias pernas, talvez percebendo finalmente o que tinham feito ali dentro.
- Henrique? – O mais alto estava com a voz somente um pouco mais rouca, ainda lambendo os lábios vez ou outra.
- Oi...? – Levantou o rosto para ele, ainda tentando estabilizar a respiração.
- Vamos para casa? – E recebeu como resposta um aceno positivo de cabeça.
Quando Henrique acordou, ele viu que estava deitado no peito do David, que dormia como uma pedra. Viu também que estava com cheiro de suor, e sem roupa alguma, como seu ‘amigo’... Se é que poderia ser chamado assim...
Ele levantou – com um pouco de dificuldade por causa da dor entre as pernas – e foi caminhando até o banheiro, entrando sob o chuveiro, arqueando-se por algo que descia do meio de suas pernas, um líquido esbranquiçado, que sabia pertencer ao garoto que dormia tranquilamente. O moreninho estava exausto e com um pouco de frio, já era manhã, mas ele não se importava. Depois de lavar-se, foi até a mochila e vestiu uma cueca e uma camisa, empurrando um pouco o mais alto e deitando do lado dele, beliscando-lhe a pele até pegar no sono novamente.
Ele já sabia o que escolher e tinha certeza de que não ficaria mais tão triste por sentimentos distantes, precisava de algo mais próximo, coisa que tinha ali. Afinal de contas, era seu melhor amigo, porque não poderia amá-lo?
Henrique não sonhou muito naquela manhã, estava cansado demais, só lembra-se de acordar com um sorriso bobo no rosto, murmurando algumas palavras bobas de valor especial para o banheiro, onde David estava. Podia até ouvir o barulho do chuveiro.
- É que preciso dizer que te amo... tanto...
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O nome original desta fic é 'Tanto...', mas por sugestão de terceiros (ou seriam primeiros?) eu modifiquei o título. Henrique é um dos personagens que menos se parece comigo, tanto física quanto psicologicamente... Vai ver ele foi um devaneio muito louco da minha cabeça.