quinta-feira, 7 de julho de 2011

Começou com uma barata...


Primeiro foi uma barata. Uma daquelas bonitas que sempre tem que aparecer na casa da gente cedo ou tarde, uma barata grande, cascuda, que mais parecia um besouro reluzente por causa de suas cores berrantes.

Eu não tinha mais de seis anos. Lembro que meus pais haviam saído de casa para comprar alguma coisa, já faz muito tempo, os detalhes escorrem da minha mente como areia desce pela ampulheta. Eu estava andando até o quarto deles e na passagem do corredor, exatamente no portal ela estava lá.
 
Uma mistura de vermelho, laranja, amarelo e preto, redonda... Deveria ter mais de cinco centímetros, achei que estava morta e olhei-a com um ar pesaroso. Pobrezinha, tive pena. Estava com o casco para baixo e as patinhas engraçadas para cima... Eu me perguntava como teria morrido...

Não gostava de baratas, na semana anterior uma havia pulado sobre mim e eu tinha me debatido até que ela saísse voando. Tirei meu tênis e a acertei, esmagando-a contra a parede, deixando nela uma marca mais escura de ‘Olá, matei uma barata aqui!’.

Depois de rezar pela alma dela, levantei-me, entrando no quarto de meus pais e subindo na cama deles, pegando um dos travesseiros mais fofos para deitar acomodado nele, na sala de estar enquanto assistia documentários sobre animais ou fantasmas. Deixaria a falecida baratinha inerte e mostraria para a minha mãe quando ela voltasse.
O problema foi que quando eu estava prestes a sai do quarto pelo mesmo portal embaratado e dirigi meus olhos à falecida, suas patinhas se moveram e vi que ela estava tentando se virar e tomar seu caminho. Joguei o travesseiro para a cama e coloquei as mãos na cabeça. Esmagar aquele inseto deixaria toda a casa suja de seu suco interno, afinal era um bicho roliço. Estremeci dos pés a cabeça enquanto a pobre barata lutava por liberdade e se debatia. Queria virar-se...

Eu não iria deixar.

Subi no armário da minha mãe e lá em cima peguei um daqueles enormes frascos de veneno. O sacudi em desespero e apontei a saída de veneno para a barata, a uma altura de meio metro... Aquilo cairia como chuva ácida em seu corpo encarapuçado. Apertei com fé o gatilho da minha arma e a chuva assassina começou a cair por seu corpo colorido. Até aí tudo bem, a deixaria morrer aos poucos como o humano porco que era – e sou até hoje! – entretanto precisava assistir a pequena criatura agonizar. Primeiro as patinhas se moveram mais rápido... Depois eu ouvi o grito – sim, um grito – vindo sabe-se lá de onde, já que não sei se baratas tem cordas vocais.

Era um som agudo e arranhado, semelhante a quando passam unhas muito compridas na lousa negra, no quadro de giz. Ela se retorcia e gritava e eu estava ali parado... Olhando como um assassino...
Naquela tarde eu senti três coisas... Durante o assassinato, claro.

Primeiro senti muita pena dela, pensei até em sua possível família, pensei em tudo... Senti muita pena da pobrezinha. A segunda coisa foi o molhado em meu rosto, o choro que não se conteve enquanto estava eu de pé olhando para aquilo. As lágrimas vertiam de meus olhos, lavando minha pele com seu gosto salgado, tentando me purifica.

A terceira coisa foi minha calça ficando molhada. De medo.

Depois deste fatídico grito e da pobre barata que nada havia feito a não ser lutar por sua vida, eu comecei a ter pesadelos todas as noites... E todos os dias, contava para meus pais cada um deles.

Nunca mais tive um sonho considerado bom e fui crescendo com a mente perturbada – tenho consciência disso – por causa de algo tão bobo quanto o grito de um inseto.


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Nossa, eu amo muito o Charlie.
Ele é perturbado pelos próprios pesadelos desde este acontecimento da pequena estória acima. Mas é uma graça de toda forma, apesar dos traumas...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ann


Eu bati no rosto dela...

Mas foi porque não estava mais agüentando, você não deve saber o que é isso.

Tudo começou quando ela chegou à escola. Era linda... Pequena, com uma face angelical e doce. Chamou a atenção de poucas pessoas, porque normalmente estavam interessados nas garotas de seios avantajados, de corpo escultural. Ela não, era simples, pequena, franzina, batida.

Quando entrou virou motivo de chacota, além de se tornar mascote da turma, por ser novinha e baixinha.
Eu a adorei desde que chegou, mas como sempre fui muito fechada em mim mesma, não puxei assunto. Só ficava admirando-a de longe, sem deixar ninguém perceber.

O que meus amigos diriam ao perceber que eu estava caidinha por uma garota novata que não tinha nenhum atrativo? Todo mundo conhecia minha fama de lésbica na escola, eu sempre fui alta, não tinha um corpo masculino, mas não me comportava como uma garotinha. Eu agia como gostava de agir, amava andar de bicicleta, andava de skate... Vivia coberta de curativos porque nunca parei quieta.

A novata – que vamos chamar de Ann, porque não quero que descubram nada sobre ninguém daqui – era diferente de mim. Tinha os cabelos em cachos românticos e grandes, caindo pelas costas... A cintura era fina, era marcada apesar de as roupas dela não demonstrarem isso...

Ela era um anjo, um anjo que ficava no meu extremo oposto.

Ann nunca se aproximou de mim, acho que ela tinha medo, como muita gente tinha... Ela passou praticamente todo o ensino médio colada numa outra garota, esta que eu não gostava... Era metida, não dava para a minha Ann o que merecia, não lhe dava atenção... Mas a minha pequena continuava na cola dela, não a largava para nada.

Perdoem-me por comparar a menina que gosto com isso, mas ela parecia um cachorrinho, cada vez que a outra garota se aproximava, ela colocava um sorriso enorme de doce no rosto e ficava ouvindo-a...
Passamos assim o primeiro e o segundo ano do ensino médio. No terceiro ano, logo no começo das aulas eu me assustei quando estava desenhando alguma bobagem no caderno e ela chegou bastante cedo, caminhando para bem perto de mim e sentando do lado.

- Oi... – Vi que ela estava morta de vergonha. Sorri de imediato, era tão fofa.
- Oi. – Respondia. Tá, sei que fui seca.. Tirei o sorriso idiota do rosto imediatamente, estava fazendo papel de boba.

O que ela iria achar se me visse sorrindo que nem uma tonta só porque estava perto? Eu nunca sorria, não o faria para ela... Pena que minha reação a deixou assustada.
A vi arregalar os olhos e baixei a cabeça para o meu desenho. Não desistiu, tentou puxar assunto novamente.

- Você... Você desenha...
- Ah jura? – Nossa, eu sempre sou assim tão simpática?

O que eu achei estranho, foi ela continuar puxando assunto mesmo comigo dando um monte de cortadas. Acontece que ela se afastou um pouco daquela outra e veio andar comigo, ficava perguntando um monte de coisas sobre a minha sexualidade e tal.

Até aí estava tudo muito bem, eu estava adorando passar mais tempo com a minha Ann, até sorria para ela, ao que ela parecia bem feliz com isso.
Um dia, estávamos por trás da quadra da escola conversando tranquilamente sob a sombra de algumas árvores, foi naquele dia que eu me tornei mais confusa do que era... Fiquei completamente perplexa.
Ela falava das matérias da escola, eu comentava das minhas ex-namoradas, tinha descoberto que ela se interessava muito nestes assuntos.

- Como você pode ficar com qualquer menina assim?
- Ora, simplesmente acontece, Ann... Eu sinto vontade, ela também... Aí ficamos.
- Queria que fosse assim... – Ela comentou e a vi baixar um pouco mais o rosto.
- Que disse?
- Queria ter coragem como você tem...
- Mas para que? – Meu coração palpitou a ponto de quase sair. Eu estava esperando ela falar algo para tomar uma atitude e pedir para beijá-la...

Queria tê-la para mim desde o primeiro ano, antes morria de medo de ela me recusar, por isso nem falava com a minha pequena. Mas quando estávamos no terceiro ano, depois que ela começou a falar comigo, a sentia cada vez mais próxima, nunca via repulsa quando a abraçava ou tentava beijar seu rosto...

- Para contar para a Erica o que eu sinto de verdade.

Eu fiquei pasma por alguns minutos. Uma das minhas mãos foi até minha boca, mordi meu polegar com força sentindo os olhos encherem de lágrimas... mas claro que não iria chorar, não na frente da Ann. Não porque ela tinha dito que gostava daquela metida maldita.

Ali eu descobrira porque ela sempre ficara na cola da outra, porque a MINHA Ann fazia todas as vontades daquela idiota que nem olhava para ela direito.
Eu sentia meu chão sumir aos poucos, como se eu estivesse sendo engolida por um punhado de areia molhada.

Engoli meu suposto choro e sorri para ela, um tanto nervosa. Baguncei seus cabelos ao que ela olhava para mim toda vermelha.

- Entendi... Olha, para o que você precisar, eu vou estar aqui. – Eu falei, ao que dentro de mim estava me matando.

Ela sorriu para mim, tão doce, tão agradecida que derreti de imediato.
Ela me abraçou e deu-me um selinho nos lábios.

Quando ela se foi para a sala eu fiquei ali sentada, até o final das aulas, chorando como uma condenada até me sentir mais leve.

E demorei a ficar melhor, sempre ficava para baixo quando terminava de falar com ela, sempre lhe dava conselhos que ela obedecia cegamente... E quando a outra não dava-lhe atenção ela vinha correndo até mim, pedindo conselhos, pedindo ajuda.
Eu abria os braços e a afagava durante horas, beijando seu rosto, falando que estava tudo bem.

E ela nunca, nunca percebeu o que eu sentia.

Ficava cada vez mais fechada, não queria mais sair com meus amigos, eu só queria ficar esperando ela vir correndo para mim, vir me pedir para ficar junto dela...

Imagina passar um ano inteiro nesta agonia?

Eu passei o ano todo aconselhando ela, o ano todo escondendo todos os meus sentimentos para fazê-la feliz. Mas a cada vez que a maldita vinha até mim, estava mais triste por causa da puta da Erica.
No fim do ano aquela situação estava insuportável. No dia da formatura ela disse que contaria tudo para aquela insana, perguntaria o que ela sentia de verdade. Eu a apoiei completamente.

Então lá estava eu, de vestido (odeio vestido) na formatura, sentada sob aquelas mesmas árvores de sempre. Eu estava com um allstar preto e um vestido lilás. Não estava a coisa mais bonita do mundo, mas felizmente minha mochila estava numa das salas e lá eu tinha roupas decentes.
Ao longe eu podia ouvir a música do salão de dança, estava com preguiça de trocar de roupa, por isso o vestido.

Eu vi minha pequena Ann vindo devagar... Ela sim estava bonita.

O vestido lilás caía perfeito nela... Os ombros nus e sem marca alguma, o rosto pintado somente com uma sombra nas pálpebras e uma camada brilhante de gloss labial incolor nos lábios... Nos pés ela tinha uma sapatilha da cor do vestido... Os cabelos estavam soltos com aqueles mesmos cachos românticos que eu adorava.

Era impossível não sorrir vendo seu rosto lindo, os passos angelicais na minha direção... Mas tinha algo muito errado. Ela odiava colocar rouge nas bochechas, mas mesmo assim seu rosto estava vermelho.

E olhando melhor, de seus olhos grandes escorriam enormes lágrimas que faziam sua maquiagem derreter aos poucos. Porque ela estava chorando?

Levantei-me desesperada e a vi parar na minha frente, meus braços a envolveram e escutei ela chorar, murmurar coisas incompreensíveis.
 Segurei seu rosto com minhas duas mãos e beijei seus lábios sutilmente.

- Que aconteceu, Ann? Porque este choro?
- E—Ela... Ela.... Ela está com um garoto.... – E caiu num pranto desesperado.

Olha, eu sei que não era culpa dela, mas Ann estava sendo muito idiota, estava sofrendo tanto por alguém que nem ligava para ela enquanto eu estava aqui, esperando, amando-a independente de suas ações bobas.

 Me afastei um pouco e levantei minha mão direita. Meus olhos se encheram de lágrimas e só eu sei com que força mordi meus lábios... Mas sim, eu bati no rosto dela, dei uma tapa no rosto dela com força.
Eu nunca acreditei muito naquela frase de “Isso vai doer mais em mim do que em você”, mas naquela noite eu descobri o que era aquilo... Completamente.

Eu vi minha Ann cair ajoelhada no chão, chorando ainda mais.

Bati no rosto dela porque não estava mais agüentando... Doía demais em mim.
Segurei-a pelo braço e a levantei, só aí percebendo que eu também chorava. A abracei como podia, beijando seus lábios com todo o carinho do mundo.
Queria que não fosse assim tão boba, Ann, mas você nunca muda, não é...?

Você continua tão inocente
Você continua amando...
Porque você não escolhe amar a mim? Eu já escolhi você.
Hey, Ann... Porque não abre os olhos para mim?

Esquizofrenia


Já soube o que era, agora não quero mais saber, porque chega um determinado momento de sua vida em que você tem que escolher o que é, o que sente e o que faz, e se ter moral é ser como as pessoas ao meu redor, prefiro não ter.
Lembra daquela menina dos sapatinhos vermelhos? Ela também não tinha moral, soube que seu destino foi trágico, já que teve seus pés arrancados por não ser boa menina, mesmo assim quero ser eu mesmo, sem estar preso a toda esta loucura de ser normal.

A mulher engoliu a seco, pedira para seu paciente mais problemático escrever alguma coisa, uma carta... Fazia parte de seu tratamento.
O rapaz tinha recém-feitos dezenove anos, seu nome era Michell e parecia que cada vez que ele voltava ao sanatório, voltava pior, e saía ainda mais abalado. Nas últimas sessões ele tinha comentado sobre algumas pessoas novas que conhecera, sobre seus familiares que o estavam odiando, e parecia cada vez mais distante... Não tinha concerto.
Caterine guardou a carta no bolso do jaleco e soltou um longo suspiro, não queria mais ler os devaneios daquele garoto, ela mesma já estava enlouquecendo por causa dele... Pelo que ele falava.
Passou no pátio cujo chão era coberto de grama e fitou o rapaz de cabelos compridos e avermelhados, apesar de escuros, Michell estava com os fios presos, um cigarro apagado nos lábios, algumas cartas de baralho nas mãos e um sorriso fino no rosto.
Olhando assim parecia um garoto normal, mas ela conhecia muito bem a situação dele.
O rapaz colocou as cartas no chão, olhando para os demais pacientes do sanatório com um enorme sorriso vitorioso, recolhendo as apostas e enchendo seus bolsos de cigarros, pequenos objetos e até algum dinheiro. Vários dos outros pacientes levantaram xingando baixinho, enquanto ele olhava de soslaio para Caterine. Doutora Caterine.
-Hey, Doutora, leu minha carta? – Perguntou baixinho, andando até ela.
Michell não era muito alto, tinha uma estatura mediana, mas seu porte era agradável, era bonito.
-Li sim, Michell. – Mentiu com uma cara séria. – Anda apostando com eles?
-Claro, não tenho nada melhor para fazer e precisava fumar... Caterine...
A mulher engoliu a seco, sabia o que ele perguntaria e sabia também a resposta daquela pergunta. Ele sempre lhe indagava a mesma coisa.
O ruivo passou as mãos no rosto, colocando o cigarro no bolso e baixando um pouco o olhar. Chutou uma pedra imaginária antes de fazer a fatídica pergunta.
-Tenho... Visita?
Ela negou com a cabeça, e o rapaz pareceu ficar com o semblante mais pesado, toda aquela alegria das apostas fora substituída por uma solidão absurda.
- Se vierem vê-lo, correrei para avisá-lo, Michell. – Falou baixinho.
Ele acenou com a cabeça e voltou a andar – agora cabisbaixo – pelo pátio, junto com os outros... loucos.

Não podia acender o cigarro, mas colocava-o apagado mesmo nos lábios, só para lembrar-se da sensação de fumar. Antes de entrar no sanatório, tinha dois piercings, lá dentro tivera que tirá-los, já que alguns pacientes não gostavam deles e metiam-lhe a mão na boca para arrancar.
Estava num estado deplorável, aquelas malditas roupas brancas irritavam-lhe todos os dias... Se ao menos soubesse o motivo de estar ali.
O problema era que Michell ouvia vozes, as ouvia o tempo todo, elas estavam sempre opinando sobre o que deveria ou não fazer... Mas o motivo de estar ali não eram as vozes.
Sabia que não.
Michell era homossexual desde que se lembrava, quando seus pais sumiram e ele teve de morar com os tios, coagira seu primo que era três anos mais novo a ficar consigo... Hoje em dia tinha dezenove e o primo dezesseis. Ainda mantinham uma relação digamos... instável, já que depois de tanto tempo não se contentava só com o garoto, que era loucamente apaixonado por si.
Suspirou.
Não era seu primo que queria receber em visita, era outra pessoa... E sabia que ele não poderia vir.

Caterine sentou-se e procurou os papéis de Michell, sempre que podia, relia a história daquele menino, que era como um filho para ela.
Achou os registros e voltou a análise, as palavras eram bem claras, frases chocantes, mas que ao mesmo tempo deixavam-na confusa.
Morte dos pais.
Perda de memória.
Tendências homossexuais.
Abuso do primo menor.
Era uma história muito complexa. Colocou as mãos na cabeça e começou a falar para si mesma, em voz baixa.
- Quatorze anos, chega em casa e encontra os pais mortos... Desmaia. Acorda no outro dia na casa de seus tios e não lembra de nada relacionado ao ‘sumiço’ de seus pais. Mora com os tios, começa a abusar do primo de onze anos, revela as tendências homossexuais mas esconde dos tios, termina o ensino médio dois anos depois, entra na faculdade mas desiste logo por alegar estar ouvindo coisas que não deveria. Esquizofrenia de nível baixo, preconceito.
Bateu o rosto de leve na madeira da mesa.
-Vive até os dezoito anos escondendo a doença, tios descobrem, mandam-no ao sanatório. Piora crônica. Quarenta e duas tentativas de suicídio. Sai do sanatório por já estar aparentemente normal...

“E o que fez enquanto estava fora daqui, Michell?”
“Ora doutora... O mesmo que sempre fiz, fiquei com meu primo, tentei estudar, trabalhei um pouco...”
“E porque voltou para cá?”
“Porque meus tios me viram conversando com ‘elas’ novamente.”
“Elas?”
“As vozes, Doutora. Já lhe falei delas...”
“................................ “
“Mas fora isso aconteceram algumas outras coisas.”
“Fale disso.”

Lembrava claramente do que ele tinha dito... Primeiro começou a falar de um rapaz que havia conhecido, perguntara-lhe como... E ele respondeu naturalmente que ele o havia abusado.

Eu estava caminhando, era fim de tarde e eu estava andando como sempre fazia... Não lembro direito o nome da rua, mas sei onde fica. Lá tem um prédio abandonado, quer dizer... Não bem abandonado, já que é lá onde eles moram... Eu passei na frente do prédio e ele saiu lá de dentro, segurou-me pelo pulso, não o conhecia. Começamos a discutir e dei um soco no rosto dele, mas ele revidou e me imobilizou... Arrastou-me para dentro do prédio e transamos, mas eu fui o passivo, nunca tinha sido, não quero que ninguém saiba.
Depois fiquei com ele, passamos quase duas horas conversando após o abuso e dormimos na mesma cama, abraçados. Não entendi direito o que significava, mas sempre que eu saio daqui, Doutora, vou vê-lo, mas sei que ele não pode vir aqui...

Ficou martelando aquilo na cabeça, não sabia quem era ele nem fazia ideia do porque de não poder visitá-lo, queria deixar o Michell um pouco mais feliz, já que da última vez, estivera muito magro e abatido.
Bateu a cabeça novamente na mesa e voltou a sua postura de Doutora – e como aquilo soava pesado... – guardando os papéis do ruivo, pegando os de seu próximo cliente e indo vê-lo.

Depois de alguns dias lá dentro, o rapaz parecia novamente são, apesar de até sua doutora saber que era só questão de tempo para que ficasse trancado lá dentro indeterminadamente, já que estava perdendo as expressões muito rápido.
Acenou parta todos e saiu pela porta, rumando de encontro a ele, que já sabia onde encontrar e que tanto esperava ver.

Eu gosto de... cinema


Abriu os olhos devagar, após espreguiçar-se devidamente e bocejar um bocejo comprido, preguiçoso.
Ainda ficou cerca de cinco minutos deitado, pensando no nada com a mão sobre o peito, somente sentindo o bum-que-bum do coração que batia forte. Era aquele o dia, o dia de sua escolha, apesar de ter quase certeza de que não estava pronto para decidir nada.
Sentou-se e ficou olhando para a parede azul de seu quarto, as malas estavam sob a cama, e não eram exatamente malas, sua bagagem consistia somente numa mochila de costas em tamanho médio, toda colorida e cheia de enfeites. Na parte mais alta desta, uma etiqueta costurada por sua tia. ‘Henrique Pedro’ tinha ali, um nome comum que ele odiava, mas era seu e não poderia mudar.
Os passos até a porta do banheiro foram preguiçosos e arrastados, trancou-se ali dentro, mesmo que o banheiro fosse somente seu. Sentou sob o chuveiro ligado, deixando a água fria correr seu corpo magro e marcado por uma ou outra cicatriz de infância.
Era moreninho, sutilmente moreno, talvez um pouco pálido por não tomar sol constantemente. Os cabelos eram compridos e bem lisos, herança de seus antepassados indígenas. Os olhos eram bem grandes e redondos, pretos como os cabelos.
Levantou e desligou o chuveiro, indo pingando mesmo até o quarto, vestindo – apesar de estar molhado – a camisa, a roupa íntima e a calça que tinha escolhido, exatamente nesta ordem.
O que fez em seguida fora o que qualquer pessoa que iria viajar faria, penteou-se, escovou os dentes e guardou a escova na mochila, colocou os sapatos nos pés e a sandália na bolsa. Soltou um suspiro longo, saindo de casa e levando consigo uma chave.
Sua tia já estava avisada de que iria viajar, ela não reclamou, era um garoto afinal, não precisava assim de tantos cuidados... Olhou a porta de sua casa e partiu, andando até a estação ferroviária, que ficava a alguns quilômetros de sua casa.

“É complicado, estou completamente confuso com tudo isso... Mas a esta altura não desistirei, claro que não, não depois do que construí até agora. “

O trem era confortável apesar de barulhento, ao menos era quente, onde contrastava com a temperatura fria... Maldito inverno, era o que pensava.
Os olhos fitavam a paisagem através do vidro, ali ele colou o rosto, respirando longamente, o sono foi inevitável. Só acordou com o apito do trem, avisando que estava na estação final, e era ali onde ficaria.
Bocejou espreguiçando-se novamente, saindo do trem e olhando em volta, procurando quem deveria estar lhe esperando. Arqueou as sobrancelhas, não via ninguém... Mas estava tudo certo para ele estar lhe esperando, onde estaria?
Quando a preocupação aumentou e ele pensou em arrumar uma forma de ligar ao outro, sentiu o corpo ser abraçado por trás e os olhos serem tapados por uma mão quente.
O sorriso apareceu imediatamente no rosto e os músculos relaxaram, colocou as mãos sobre a do outro.

- Adivinha quem é...

A voz soou por seus ouvidos e ele se arrepiou, Henrique não lembrava a quanto tempo estava esperando sentir aquele contato e ouvir a voz do outro assim tão próxima.
Eles haviam se conhecido pela internet. Aos poucos descobriram como tinham semelhanças a começar pela idade...
Ambos tinham dezessete anos completados recentemente, ambos tinham os cabelos compridos, apesar de Henrique tê-los pretos e lisos e David manter os seus naturalmente cacheados e um tanto mais claros... Os dois tinham alguns problemas familiares, os dois tinham problemas com a sua sexualidade – apesar de David já ter namorado com homens, o que Henrique não tinha feito -, tinham a pele amorenada, tinham os olhos grandes e escuros... E se amavam de uma forma simplesmente absurda!
Não, não eram namorados, na verdade, um tanto longe disso...

- Lindo!

Eram melhores amigos.

- Bobo.

Se abraçaram. Henrique – que era pelo menos dez centímetros mais baixo que David – deitou a cabeça no ombro do amigo, e sabe-se lá quanto tempo ficaram se amassando na estação ferroviária, só lembraram de parar quando a chuva caiu soberana ali e começou a molhar os amigos.
David pegou o menor pelo braço e foi andando com ele até a parte coberta da estação, onde ligou pelo celular para seu pai e pediu para este buscá-los.
Enquanto esperavam conversavam banalidades e se alisavam, tocavam as mãos, os rostos um do outro e trocavam alguns selinhos quando não tinha ninguém olhando.
Henrique não morava assim tão perto do maior, na verdade ele tivera muita sorte pois sua família se mudou, assim ele ficou a somente cinco horas de distância de seu amigo. Eles se falavam todos os dias, soltavam piadas, diziam que queriam casar um com o outro, planejavam a futura casa que pertenceria aos dois... Era algo muito bonito, puro e simples.
Quando um estava triste o outro sentia, e lutava contra tudo e todos para a felicidade alheia.

-Eu ainda não acredito que finalmente nos vimos de verdade... – Falou o mais baixo, sorrindo um tanto bobo, dando um soco de leve na perna do outro, que estava bem mais agasalhado.
- A ficha para você nunca cai, fofo.
- Você disse para o seu pai que eu iria vir, não disse?
-Yeah.

E brincaram mais um tanto. Quando David disse que seu pai já deveria estar chegando, a postura de ambos modificou-se completamente, conversavam discretamente, pareciam mais sérios... Henrique não queria colocar em risco a máscara que David manteve desde sempre colada no rosto, seu pai não podia nem sonhar que ele ficava com outros meninos, ninguém sabia como ele reagiria... Apesar de já ter comentado abertamente que tinha nojo de homossexuais.
Levantaram ao ouvir a buzina e foram andando até o carro. Henrique pegou a mochila, colocando-a no porta-malas, acomodando-se depois ao lado do maior no banco de trás. Sorriu para o pai de seu amigo apesar de em seguida recolher-se um tanto, vermelho de vergonha.
Até o apartamento em que David morava, todos três dentro do carro ficaram num silêncio quase sepulcral, cada um imerso em seus próprios pensamentos.
Henrique passava as mãos nos próprios braços, sentindo o frio horrível em seu corpo, amaldiçoando-se por não ter pego o casaco.
David olhava de canto para o menor, mordendo o lábio inferior por causa da vontade que tinha de abraçar e aquecer o amigo.
E o pai do David... Estava preocupado com os seus assuntos, coisas que bem, seriam assunto para uma outra história...
Chegaram no apartamento e subiram uma série de escadas – só os dois garotos, o pai do maior dissera que tinha que comprar o jantar.

- Frio, frio, frio, friiio... – Henrique reclamou, colocando a mochila no chão do quarto do rapaz de cabelos encaracolados.
- Ohh... Momoo... – David pulou sobre o menor, abraçando-o e afagando suas costas.

Ele achava engraçado como o outro menino podia ser magrinho e pequeno, por isso sempre tivera vontade de abraçá-lo, e agora que podia não queria mais desgrudar dele.

- Oiii...

Sempre a mesma agonia, da mesma forma que se tratavam pela internet, se tratavam pessoalmente, apesar de que frente a frente poderiam se agarrar de verdade, se beijar de verdade.
Os dois sentaram na cama do maior, ficaram ainda um bom tempo em silêncio, abraçados.
O menor sentia o calor do outro em seu corpo, o outro sorria um sorriso bobo, pela sensação boa que era proteger alguém.

- Bebê... – David chamou o pequeno manhosamente, apertando-o mais entre os braços. – Como você está com aquele outro...?
- .............. – Aquietou-se, deitando a cabeça no ombro do maior. – Como eu te disse... Ainda estou muito confuso...
- Aham... Está sendo bobo também, você sabe...
- Sei sim, mas a gente não escolhe de quem gosta, se não... Eu ia escolher você, Dêê...
- É...

Henrique estranhou a falta de humor do outro, mas simplesmente esfregou o rosto no peito dele, como um filhote manhoso.

- Dêêê... – Chamou-o, ouvindo o risinho dele. – Eu estou carente...
- Eu também estou, bebê...

Aquele assunto doía nos dois.
O menino com traços indígenas era... Perdidamente apaixonado por alguém. Um garoto que conhecera pela internet, assim como conhecera o David. Nunca tinha ficado com garotos, nunca tinha sequer pensado no assunto homossexualismo, o menor era bem decidido, pelo menos até começar a conversar com o Pi.
Pi logicamente era só um codinome para um rapaz – já adulto, que era muito íntimo do baixinho. O nome verdadeiro dele era Marcelo.
Marcelo tinha quase vinte e cinco anos, era hétero, já tinha namorado com muitas mulheres apesar de não manter relacionamento duradouro com nenhuma delas... Conhecia Henrique a mais de três anos, sempre soltava brincadeiras maliciosas para cima dele, sempre pedia conselhos a ele, sempre conversava com ele.
Os dois se entregavam um ao outro de tal forma quando conversavam, que quem não os conhecesse, diria que eram namorados.
Aí estava o problema.
Mas porque?
Porque o pequeno, após um tempo, começara a cair de amores pelo maior, e não fazia ideia de como se comportar, já que tinha certeza de que o outro era hétero, e tinha vergonha demais para falar a ele o que sentia na verdade.
A saída era desabafar com o David, contar a ele tudo o que sentia e trocar conselhos com ele.
Para David, ouvir o outro falar de quem ele amava era extremamente doloroso, já que só queria seu bem, completamente, absolutamente, era muito preocupado com ele.

- Você contou ao Pi que viria para cá?
- Contei... – A essa altura ambos já estavam deitados e agarrados na cama, trocando selinhos eventualmente. – Sabe que não consigo esconder nada dele.
- E o que ele disse? – O de cabelos cacheados se inclinou um pouco, beijando o pescoço do menor.
- Ficou com ciúmes, ficou triste...
-Pff... – Deu de ombros, apertando mais o Henrique entre os braços. – Você não quer mais casar comigo, não é, momo...
- ..........OHHH, não diga isso!!!

E estavam eles novamente se amassando, até que por um pouco de senso sentaram-se e o mais alto foi buscar alguns desenhos para mostrar ao de traços indígenas.

xXx

Oi diário...
O David está no banho, eu estou agora jogado sobre a cama dele escrevendo em você. Está doendo, sabia? Eu sei que gosto muito do Pi, mas sinto uma coisa muito forte pelo David...
O problema é que conheço o Pi a quase quatro anos, gosto dele desde que me lembro, já o Dê eu só o conheço a cerca de um ano...
Eu não me entendo.
Achava que o que tenho aqui dentro seria sempre entregue ao meu Pi, sim, porque ele vai ser sempre meu...
.....................................
O chuveiro foi fechado, espera que vou guardar você no bolso escondido da minha mochila, eu estaria ferrado se alguém encontrasse você.
- Henrique Pedro ----------x

E fingiu que estava dormindo após ensocar o diário dentro da mochila.
Estava com seu pijama favorito, aquele verde e cinza completamente básico, sem nenhum detalhe a mais. Esparramado na cama de solteiro com a boca entreaberta e os olhos fechados, estava com uma expressão angelical, era um ótimo ator. O peito levantava e descia lentamente, num compasso lânguido, convidativo.
David saiu do banheiro ainda molhado, usando só uma bermuda. Trancou a porta delicadamente e ajoelhou-se ao lado da cama, segurando os cabelos molhados e inclinando-se na direção do pequeno, beijando seu pescoço tantas vezes que era até difícil contar. Ficou beijando-o até que ele se remexesse de cócegas.

- Bobo...

Murmurou rindo do menor, subindo nele e sentando sobre o seu abdômen, atacando-lhe a boca com um beijo voraz.
Quando estava daquela forma com o David, Henrique poderia esquecer da dor que apertava seu peito todo o tempo, ele poderia esquecer um tanto do Pi e dar atenção a seu amigo.
Estava sendo terrível em suas atitudes, tudo o que fazia era pensando em sua própria dor e desespero, estava sendo egoísta, mesmo sabendo que o amigo tinha tantos problemas quanto ele mesmo... Mas não podia resistir, era egoísta e mesquinho por natureza, fazia parte de seu interior, se tornara uma característica imutável.
As mãos de dedos finos foram até as costas do mais alto e puxaram-no mais para si, somente para ter o corpo alheio em cima do seu, já que o beijo havia sido encerrado a pouco.

-Você me acordou... – O menor mentiu, reclamando.
-Mentiroso! – Bradou de imediato. – Você estava rindo de canto...
- Mas e se eu tivesse tendo um sonho bom...?
- Com o sorriso que você estava, eu só precisaria olhar para sua parte baixa do seu pijama, para saber se era verdade.
-Sa-fa-do.

Escutaram a porta do apartamento ser aberta e imediatamente desgrudaram-se, não lembrando que tinham trancado a porta do quarto. Depois do susto começaram a rir um tanto baixo.

- Se você tivesse dado duas voltas na chave, David, nós não teríamos nos assustado...
-Isso é mentira também, seu safado. Queria ficar agarrado em mim, não era? – Perguntou baixinho, para seu pai não ouvir.

O menor simplesmente mostrou a língua, sentando enquanto o outro abria o armário e procurava alguma coisa.

- Que está procurando?
- Uma roupa... Vamos sair.
- Mas eu já estou de pijama! – Encolheu-se, cobrindo o corpo com o cobertor grosso.
-E daí? Vá vestir outra coisa e se arrume... Vamos conhecer alguns de meus amigos no caminho para o cinema.
- ....................... – Henrique baixou só um pouco o cobertor, deixando seus olhos grandes de fora. – Cinema?

O outro só sorriu de canto, concordando com a cabeça, começando a gargalhar enquanto via Henrique levantar desesperadamente e se ajoelhar ao lado da mochila, jogando algumas calças e camisas sobre a cama, indeciso quanto a qual escolher.
Não levara muitas roupas, já que só iria passar cerca de uma semana com o outro, depois logicamente teria que voltar para casa.

- Qual dessas? – Apontou as blusas, enquanto via o outro já pronto.
- Melhor pegar algo mais quente...
- Balela, não vou sentir frio!
- Se você diz... Vai com a preta. – Apontou.
- Qual das pretas? – Fez cara de tacho, segurando as blusas escuras que tinha levado.
- A lisa. – Deu de ombros.
- Certo!

Despiu-se rapidamente e vestiu a blusa escolhida pelo outro, uma calça da mesma cor com algumas fivelas e um sapato também preto, com alguns detalhes em branco e vermelho... Parecia estar pronto. Virou-se para encarar o mais alto, que estava sentado na cama com um dos cotovelos sobre os joelhos e o rosto apoiado na mão, olhando-o com um sorriso completamente bobo no rosto.
Henrique corou de vergonha imediatamente, colocando as mãos nas bochechas quentes.

- Não olhe assim!
- Assim como? – Gracejou David, levantando e indo até o menor, parando a sua frente.
- Assim como você está me olhando... Seu bobo.
- Mas eu gosto de te olhar assim, não posso? – Agarrou-o pela cintura, baixando um tanto o rosto para beijar o pescoço nu.

O de cabelos pretos arrepiou-se, segurando nas roupas de seu amigo. David estava bem mais quente, estava com uma calça pesada, coturnos e além de uma camisa preta um casaco um tanto grande, mais parecia um sobretudo cheio de botões e bolsos.

- Pode... – Fechou os olhos e sorriu.

E foi beijado. E se beijaram mais sabe-se lá quantas vezes, até que decidiram sair mesmo.
Henrique não resistia a nada ao ouvir a palavra cinema. Na verdade, havia uma série de palavras que o fazia estremecer nas bases e aceitar quase qualquer coisa.
Cinema.
Zoológico.
Parque.
Doces.
Não só essas, também haviam outras, mas digamos que estes eram os tópicos principais de sua lista de coisas que não poderia deixar de fazer.
O cinema e o zoológico era porque só tinha ido a algum deles uma ou duas vezes, e estas tinham sido experiências maravilhosas, coisas que ele gostaria de repetir.
Saíram do apartamento e começaram a andar pela cidade, um ao lado do outro indo em direção ao cinema, que não ficava exatamente perto. No caminho até lá, Henrique conhecera alguns dos amigos de David, gostando de uns e se assustando com outros, mas fora algo divertido, apesar de sempre ficar com vergonha de falar com eles.
Nenhum ia para o cinema, na verdade eles estavam indo a uma festa, tanto que até chamaram o mais alto e seu ‘amigo baixinho’, mas disseram-lhe que estavam indo ao cinema, e que depois se tivessem tempo passariam por lá.
Henrique queria assistir a um filme de terror, David disse-lhe que não aguentaria e que ficaria com medo, como sabia que o menor iria ficar. Mesmo.
Depois de muita insistência do pequeno, ambos foram para uma daquelas salas, a que exibiria um filme de terror e suspense e acomodaram-se bem atrás, onde não tinha muita gente.
Não era estreia do filme, era na verdade uma das últimas exibições dele, por isso não tinha muita gente no cinema, quando a película começou Henrique se encolheu um pouco e o maior foi lhes comprar pipocas e refrigerantes. Quando voltou, o garoto estava com as mãos sobre os olhos, assistindo a tudo pela brecha de seus dedos. O outro riu e sentou-se do lado.

- Bu.

O menor ficou assustado e olhou para ele com os olhos arregalados, ficando mais calmo quando David riu baixinho.

- Ah seu filho da mãe...
- Estava tão concentrado que não pude resistir...

E começou a comer pipoca, puxando Henrique pelo braço e forçando algumas na boca do garoto, ao que este comeu sem tirar os olhos da tela enorme.
Ele estava completamente perdido em meio aos enigmas do filme, tanto que nem percebia o sorriso malicioso de seu amigo, que dava de ombros quanto ao filme – já tinha baixado e assistido todos mesmo...
O de cabelos cacheados foi deslizando a mão pela divisória da cadeira, tocando com a ponta dos dedos a coxa do menor, que se assustou mais uma vez e encolheu-se.

- Para com isso, quero assistir o filme... – Henrique fez um biquinho.
- Certo, vossa majestade, pararei. – Murmurou, revirando os olhos.

Mas sua mão continuou ali, e aos poucos corria pela coxa do garoto, alcançando-lhe a virilha.
O menino arregalou os olhos, fitando a própria perna e vendo as perversões que seu amigo planejara. Estreitou os olhos, mas teve que sorrir perante a cara de cachorro sem dono que fizera.
Engoliu a seco e disse a si mesmo que assistiria ao filme e não ligaria para aquela mão entre suas pernas.
Mão esta que cada vez apertava mais o que tinha por baixo dos panos, que descia pela coxa provocando e que voltava a subir, indo até o cós da calça e abrindo o botão.

- D—David... – Olhou-lhe com o rosto vermelho de vergonha.
- Oi, meu lindo. – Gracejou, mordendo o lábio inferior.

Henrique se via numa situação deveras complicada, uma vez que não poderia reclamar com David já que faria barulho e todos olhariam para si. Não podia também deixar ele se aproveitar, não num lugar cheio de gente.
Colocou uma das mãos sobre a boca, sentindo o baixo-ventre arder ao ser tocado diretamente pelo maior. Estava ficando excitado! E sabia porque... Estava num lugar cheio de gente, estava sendo abusado num lugar cheio de gente. E como era essencialmente exibicionista, não podia controlar sua natureza, acabava ficando ainda mais ‘animado’ por pensar que os outros podiam vê-los a qualquer momento.
Segurou na gola de sua própria camisa, sentindo um calor absurdo subir desde entre suas pernas até sua nuca, fazendo o garoto começar a suar.
A mão do mais atrevido abriu o botão, baixou o zíper e enfiou-se na cueca do mais novo, puxando para fora seu membro que estava realmente bem rígido. David riu baixinho, não achava que ele já deveria estar naquela situação, o rosto estava voltado para a tela enorme do cinema, mas aquela mão – aquela pervertida mão – circundava o sexo do menor e começava a massageá-lo calmamente, de cima a baixo, tantas vezes que Henrique tinha que segurar o próprio pescoço para não soltar barulho algum.
Agora estava – literalmente - nas mãos do maior.

- Porque não... – David começou, sorrindo, ainda olhando para a tela. - ...faz o mesmo?
- P—Podem nos ver... – Colocou uma das mãos sobre a boca e olhou em volta, estavam muito concentrados no filme.
- Você não gosta disso?

Henrique não sabia o que dizer. Ele gostava da sensação do perigo, mas tinha medo também, e nunca... Ninguém nunca tinha feito ‘aquilo’ para ele.
Desceu com uma das mãos até as pernas do mais alto, dedilhando-as calmamente, olhando para o lado oposto enquanto subia até a virilha como David fizera antes consigo. Escutou um suspirar vindo dele e ficou até mais aliviado, afinal ficava feliz de saber que ele estava gostando daquilo.
Abriu a calça de tecido pesado e burlando a roupa íntima do outro tirou-lhe o membro dali, assustando-se ao fitá-lo de canto.
Eles tinham praticamente a mesma idade, como poderiam seus corpos serem tão diferentes?
Remexeu-se, sentindo ainda a mão do outro contra o meio de suas pernas, mas estava destinado a causar-lhe as mesmas sensações e a vergonha que tivera. Soltou-lhe o membro e lambeu demoradamente a palma da mão, voltando para ele e começando um deslizar inconstante. Ele sentiu que o maior não estava com tanta força nas mãos, na verdade ele suspirava um tanto alto, eram quase gemidos. David não tinha vergonha?
Quando pensou em indagar-lhe isso, foi puxado para perto dele. O garoto de cabelos cacheados bateu na divisória das cadeiras, fazendo-a levantar, tendo um acesso mais simples ao menor. Puxou-se para bem perto e roubou um beijo demorado, que Henrique retribuiu com gosto. Uma das mãos segurava o rosto dele, a outra puxava sua calça para baixo, ao que o pequeno segurava nos ombros daquele que o estava abusando.
Quando Henrique percebeu, sua calça já estava no meio das coxas e suas nádegas estavam sendo apertadas pelo outro. Todo o corpo do menor estava arrepiado, estava quente também.
O beijo foi partido, mas o maior não parecia querer parar por ali, ele desceu pelo rosto do outro garoto com beijos molhados, escorregou até seu pescoço, numa trilha quente, cheia de lambidas, beijos e mordidas. Afastou-se ao dar de cara com aquela camisa.

- D...David... – O corpo do garoto estava ardendo.
- Nós vamos... Parar por aqui. – O maior falou com a voz um tanto gemida.
- O-O QUE? – Falou tão alto que várias pessoas viraram-se e fitaram os garotos quase atracados. A sorte deles era que não podiam ver da cintura para baixo deles, por causa dos assentos da frente.

Henrique ficou tão desesperado com aqueles olhares que rapidamente arrumou-se, colocando o membro – ainda rígido – para dentro da calça, fitando o maior com os olhos arregalados.
David não parecia nem um pouco incomodado, se masturbava descaradamente, mordendo os lábios para não deixar escapar nenhum barulho. Virou o rosto para o outro e lhe sorriu pervertido, aumentando o ritmo dos movimentos até que manchasse as costas da cadeira da frente com o resultado de tanta provocação. Pegou alguns guardanapos e limpou-se, arrumando as calças em seguida, beijando o rosto do menor.
O garoto de cabelos lisos e longos estava pasmo, ainda estava desconfortável com aquilo contido entre as pernas, como o outro podia no meio do cinema fazer uma coisa dessas?
Baixou o rosto um tanto sem graça, ao que o maior levantou, segurando-o pelo braço com a mão limpa, arrastando-o para fora daquela sala de exibição e fechando-se num dos banheiros do lugar.

- O que... O que quer fazer? – Perguntou segurando a calça sobre o volume do meio das pernas.

O maior somente sorriu e o empurrou numa das cabines, o fazendo ficar de pé em cima da tampa do vaso sanitário. Baixou-lhe a calça rapidamente, arrastando junto à roupa íntima, segurando o membro do garoto com uma das mãos, massageando-o.
As mãos do menor foram parar nos cabelos do outro, precisava segurar-se em algo afinal. David abaixou-se somente um pouco, passando a ponta da língua no que segurava. O garoto arqueou-se um tanto por causa daquele contato, algo diferente que ele nunca tinha provado... E como era bom, enquanto sentia sua intimidade ser envolvida com a língua do outro, Henrique divagava, perdia-se nas novas sensações.
O formigamento entre as pernas dado por conta do prazer o fazia tremer, agarrar os cabelos do mais alto e pedir, com a voz por um fio para que ele aumentasse o ritmo daquilo, para que ele o envolvesse por completo.
O menor estava a ponto de gemer um tanto alto quando ouviu a porta do banheiro ser aberta, abaixando a cabeça para que não o vissem por cima das divisórias. David não parava, pelo contrário, respondendo as vontades do garoto, ele abriu a boca e tomou-o de vez, acomodando-lhe o membro na boca, afastando a cabeça num vai-e-vem preciso, onde parava vez ou outra para sugar a ponta do que tinha em mãos.
O moreninho puxou os cabelos do outro com mais força, lutando contra os gemidos, contra suas vontades para fazer silêncio e não chamar a atenção de ninguém. Mas aquilo era quase impossível, o outro estava deixando ele louco, arrancando qualquer resquício de sanidade com aquela boca pervertida.
O homem que fora ao banheiro saiu logo depois de lavar as mãos, deixando-os sozinhos novamente, agora si Henrique suspirava baixo, chamando pelo nome do mais alto, querendo sair logo daquele abismo de prazeres, que estava deixando-o tonto.
Tremeu um pouco mais, perdendo quase que completamente a força nas pernas, sentindo que tudo estava centrado em seu baixo ventre. Emitiu um ruído rouco, deliciado quando percebeu estar se derramando contra a boca do maior, que teve certo trabalho para sorver aquilo, mas que conseguira engolir grande parte.
Sentou no vaso sanitário ainda fechado enquanto arrumava as calças e olhava o rosto do outro, o vendo limpar a boca do que não pudera engolir. Tremeu diante daquela visão, segurando nas próprias pernas, talvez percebendo finalmente o que tinham feito ali dentro.

- Henrique? – O mais alto estava com a voz somente um pouco mais rouca, ainda lambendo os lábios vez ou outra.
- Oi...? – Levantou o rosto para ele, ainda tentando estabilizar a respiração.
- Vamos para casa? – E recebeu como resposta um aceno positivo de cabeça.


Quando Henrique acordou, ele viu que estava deitado no peito do David, que dormia como uma pedra. Viu também que estava com cheiro de suor, e sem roupa alguma, como seu ‘amigo’... Se é que poderia ser chamado assim...
Ele levantou – com um pouco de dificuldade por causa da dor entre as pernas – e foi caminhando até o banheiro, entrando sob o chuveiro, arqueando-se por algo que descia do meio de suas pernas, um líquido esbranquiçado, que sabia pertencer ao garoto que dormia tranquilamente. O moreninho estava exausto e com um pouco de frio, já era manhã, mas ele não se importava. Depois de lavar-se, foi até a mochila e vestiu uma cueca e uma camisa, empurrando um pouco o mais alto e deitando do lado dele, beliscando-lhe a pele até pegar no sono novamente.
Ele já sabia o que escolher e tinha certeza de que não ficaria mais tão triste por sentimentos distantes, precisava de algo mais próximo, coisa que tinha ali. Afinal de contas, era seu melhor amigo, porque não poderia amá-lo?
Henrique não sonhou muito naquela manhã, estava cansado demais, só lembra-se de acordar com um sorriso bobo no rosto, murmurando algumas palavras bobas de valor especial para o banheiro, onde David estava. Podia até ouvir o barulho do chuveiro.

- É que preciso dizer que te amo... tanto...


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O nome original desta fic é 'Tanto...', mas por sugestão de terceiros (ou seriam primeiros?) eu modifiquei o título. Henrique é um dos personagens que menos se parece comigo, tanto física quanto psicologicamente... Vai ver ele foi um devaneio muito louco da minha cabeça.