Eu bati no rosto dela...
Mas foi porque não estava mais agüentando, você não deve saber o que é isso.
Tudo começou quando ela chegou à escola. Era linda... Pequena, com uma face angelical e doce. Chamou a atenção de poucas pessoas, porque normalmente estavam interessados nas garotas de seios avantajados, de corpo escultural. Ela não, era simples, pequena, franzina, batida.
Quando entrou virou motivo de chacota, além de se tornar mascote da turma, por ser novinha e baixinha.
Eu a adorei desde que chegou, mas como sempre fui muito fechada em mim mesma, não puxei assunto. Só ficava admirando-a de longe, sem deixar ninguém perceber.
O que meus amigos diriam ao perceber que eu estava caidinha por uma garota novata que não tinha nenhum atrativo? Todo mundo conhecia minha fama de lésbica na escola, eu sempre fui alta, não tinha um corpo masculino, mas não me comportava como uma garotinha. Eu agia como gostava de agir, amava andar de bicicleta, andava de skate... Vivia coberta de curativos porque nunca parei quieta.
A novata – que vamos chamar de Ann, porque não quero que descubram nada sobre ninguém daqui – era diferente de mim. Tinha os cabelos em cachos românticos e grandes, caindo pelas costas... A cintura era fina, era marcada apesar de as roupas dela não demonstrarem isso...
Ela era um anjo, um anjo que ficava no meu extremo oposto.
Ann nunca se aproximou de mim, acho que ela tinha medo, como muita gente tinha... Ela passou praticamente todo o ensino médio colada numa outra garota, esta que eu não gostava... Era metida, não dava para a minha Ann o que merecia, não lhe dava atenção... Mas a minha pequena continuava na cola dela, não a largava para nada.
Perdoem-me por comparar a menina que gosto com isso, mas ela parecia um cachorrinho, cada vez que a outra garota se aproximava, ela colocava um sorriso enorme de doce no rosto e ficava ouvindo-a...
Passamos assim o primeiro e o segundo ano do ensino médio. No terceiro ano, logo no começo das aulas eu me assustei quando estava desenhando alguma bobagem no caderno e ela chegou bastante cedo, caminhando para bem perto de mim e sentando do lado.
- Oi... – Vi que ela estava morta de vergonha. Sorri de imediato, era tão fofa.
- Oi. – Respondia. Tá, sei que fui seca.. Tirei o sorriso idiota do rosto imediatamente, estava fazendo papel de boba.
O que ela iria achar se me visse sorrindo que nem uma tonta só porque estava perto? Eu nunca sorria, não o faria para ela... Pena que minha reação a deixou assustada.
A vi arregalar os olhos e baixei a cabeça para o meu desenho. Não desistiu, tentou puxar assunto novamente.
- Você... Você desenha...
- Ah jura? – Nossa, eu sempre sou assim tão simpática?
O que eu achei estranho, foi ela continuar puxando assunto mesmo comigo dando um monte de cortadas. Acontece que ela se afastou um pouco daquela outra e veio andar comigo, ficava perguntando um monte de coisas sobre a minha sexualidade e tal.
Até aí estava tudo muito bem, eu estava adorando passar mais tempo com a minha Ann, até sorria para ela, ao que ela parecia bem feliz com isso.
Um dia, estávamos por trás da quadra da escola conversando tranquilamente sob a sombra de algumas árvores, foi naquele dia que eu me tornei mais confusa do que era... Fiquei completamente perplexa.
Ela falava das matérias da escola, eu comentava das minhas ex-namoradas, tinha descoberto que ela se interessava muito nestes assuntos.
- Como você pode ficar com qualquer menina assim?
- Ora, simplesmente acontece, Ann... Eu sinto vontade, ela também... Aí ficamos.
- Queria que fosse assim... – Ela comentou e a vi baixar um pouco mais o rosto.
- Que disse?
- Queria ter coragem como você tem...
- Mas para que? – Meu coração palpitou a ponto de quase sair. Eu estava esperando ela falar algo para tomar uma atitude e pedir para beijá-la...
Queria tê-la para mim desde o primeiro ano, antes morria de medo de ela me recusar, por isso nem falava com a minha pequena. Mas quando estávamos no terceiro ano, depois que ela começou a falar comigo, a sentia cada vez mais próxima, nunca via repulsa quando a abraçava ou tentava beijar seu rosto...
- Para contar para a Erica o que eu sinto de verdade.
Eu fiquei pasma por alguns minutos. Uma das minhas mãos foi até minha boca, mordi meu polegar com força sentindo os olhos encherem de lágrimas... mas claro que não iria chorar, não na frente da Ann. Não porque ela tinha dito que gostava daquela metida maldita.
Ali eu descobrira porque ela sempre ficara na cola da outra, porque a MINHA Ann fazia todas as vontades daquela idiota que nem olhava para ela direito.
Eu sentia meu chão sumir aos poucos, como se eu estivesse sendo engolida por um punhado de areia molhada.
Engoli meu suposto choro e sorri para ela, um tanto nervosa. Baguncei seus cabelos ao que ela olhava para mim toda vermelha.
- Entendi... Olha, para o que você precisar, eu vou estar aqui. – Eu falei, ao que dentro de mim estava me matando.
Ela sorriu para mim, tão doce, tão agradecida que derreti de imediato.
Ela me abraçou e deu-me um selinho nos lábios.
Quando ela se foi para a sala eu fiquei ali sentada, até o final das aulas, chorando como uma condenada até me sentir mais leve.
E demorei a ficar melhor, sempre ficava para baixo quando terminava de falar com ela, sempre lhe dava conselhos que ela obedecia cegamente... E quando a outra não dava-lhe atenção ela vinha correndo até mim, pedindo conselhos, pedindo ajuda.
Eu abria os braços e a afagava durante horas, beijando seu rosto, falando que estava tudo bem.
E ela nunca, nunca percebeu o que eu sentia.
Ficava cada vez mais fechada, não queria mais sair com meus amigos, eu só queria ficar esperando ela vir correndo para mim, vir me pedir para ficar junto dela...
Imagina passar um ano inteiro nesta agonia?
Eu passei o ano todo aconselhando ela, o ano todo escondendo todos os meus sentimentos para fazê-la feliz. Mas a cada vez que a maldita vinha até mim, estava mais triste por causa da puta da Erica.
No fim do ano aquela situação estava insuportável. No dia da formatura ela disse que contaria tudo para aquela insana, perguntaria o que ela sentia de verdade. Eu a apoiei completamente.
Então lá estava eu, de vestido (odeio vestido) na formatura, sentada sob aquelas mesmas árvores de sempre. Eu estava com um allstar preto e um vestido lilás. Não estava a coisa mais bonita do mundo, mas felizmente minha mochila estava numa das salas e lá eu tinha roupas decentes.
Ao longe eu podia ouvir a música do salão de dança, estava com preguiça de trocar de roupa, por isso o vestido.
Eu vi minha pequena Ann vindo devagar... Ela sim estava bonita.
O vestido lilás caía perfeito nela... Os ombros nus e sem marca alguma, o rosto pintado somente com uma sombra nas pálpebras e uma camada brilhante de gloss labial incolor nos lábios... Nos pés ela tinha uma sapatilha da cor do vestido... Os cabelos estavam soltos com aqueles mesmos cachos românticos que eu adorava.
Era impossível não sorrir vendo seu rosto lindo, os passos angelicais na minha direção... Mas tinha algo muito errado. Ela odiava colocar rouge nas bochechas, mas mesmo assim seu rosto estava vermelho.
E olhando melhor, de seus olhos grandes escorriam enormes lágrimas que faziam sua maquiagem derreter aos poucos. Porque ela estava chorando?
Levantei-me desesperada e a vi parar na minha frente, meus braços a envolveram e escutei ela chorar, murmurar coisas incompreensíveis.
Segurei seu rosto com minhas duas mãos e beijei seus lábios sutilmente.
- Que aconteceu, Ann? Porque este choro?
- E—Ela... Ela.... Ela está com um garoto.... – E caiu num pranto desesperado.
Olha, eu sei que não era culpa dela, mas Ann estava sendo muito idiota, estava sofrendo tanto por alguém que nem ligava para ela enquanto eu estava aqui, esperando, amando-a independente de suas ações bobas.
Me afastei um pouco e levantei minha mão direita. Meus olhos se encheram de lágrimas e só eu sei com que força mordi meus lábios... Mas sim, eu bati no rosto dela, dei uma tapa no rosto dela com força.
Eu nunca acreditei muito naquela frase de “Isso vai doer mais em mim do que em você”, mas naquela noite eu descobri o que era aquilo... Completamente.
Eu vi minha Ann cair ajoelhada no chão, chorando ainda mais.
Bati no rosto dela porque não estava mais agüentando... Doía demais em mim.
Segurei-a pelo braço e a levantei, só aí percebendo que eu também chorava. A abracei como podia, beijando seus lábios com todo o carinho do mundo.
Queria que não fosse assim tão boba, Ann, mas você nunca muda, não é...?
Você continua tão inocente
Você continua amando...
Porque você não escolhe amar a mim? Eu já escolhi você.
Hey, Ann... Porque não abre os olhos para mim?
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