segunda-feira, 4 de julho de 2011

Esquizofrenia


Já soube o que era, agora não quero mais saber, porque chega um determinado momento de sua vida em que você tem que escolher o que é, o que sente e o que faz, e se ter moral é ser como as pessoas ao meu redor, prefiro não ter.
Lembra daquela menina dos sapatinhos vermelhos? Ela também não tinha moral, soube que seu destino foi trágico, já que teve seus pés arrancados por não ser boa menina, mesmo assim quero ser eu mesmo, sem estar preso a toda esta loucura de ser normal.

A mulher engoliu a seco, pedira para seu paciente mais problemático escrever alguma coisa, uma carta... Fazia parte de seu tratamento.
O rapaz tinha recém-feitos dezenove anos, seu nome era Michell e parecia que cada vez que ele voltava ao sanatório, voltava pior, e saía ainda mais abalado. Nas últimas sessões ele tinha comentado sobre algumas pessoas novas que conhecera, sobre seus familiares que o estavam odiando, e parecia cada vez mais distante... Não tinha concerto.
Caterine guardou a carta no bolso do jaleco e soltou um longo suspiro, não queria mais ler os devaneios daquele garoto, ela mesma já estava enlouquecendo por causa dele... Pelo que ele falava.
Passou no pátio cujo chão era coberto de grama e fitou o rapaz de cabelos compridos e avermelhados, apesar de escuros, Michell estava com os fios presos, um cigarro apagado nos lábios, algumas cartas de baralho nas mãos e um sorriso fino no rosto.
Olhando assim parecia um garoto normal, mas ela conhecia muito bem a situação dele.
O rapaz colocou as cartas no chão, olhando para os demais pacientes do sanatório com um enorme sorriso vitorioso, recolhendo as apostas e enchendo seus bolsos de cigarros, pequenos objetos e até algum dinheiro. Vários dos outros pacientes levantaram xingando baixinho, enquanto ele olhava de soslaio para Caterine. Doutora Caterine.
-Hey, Doutora, leu minha carta? – Perguntou baixinho, andando até ela.
Michell não era muito alto, tinha uma estatura mediana, mas seu porte era agradável, era bonito.
-Li sim, Michell. – Mentiu com uma cara séria. – Anda apostando com eles?
-Claro, não tenho nada melhor para fazer e precisava fumar... Caterine...
A mulher engoliu a seco, sabia o que ele perguntaria e sabia também a resposta daquela pergunta. Ele sempre lhe indagava a mesma coisa.
O ruivo passou as mãos no rosto, colocando o cigarro no bolso e baixando um pouco o olhar. Chutou uma pedra imaginária antes de fazer a fatídica pergunta.
-Tenho... Visita?
Ela negou com a cabeça, e o rapaz pareceu ficar com o semblante mais pesado, toda aquela alegria das apostas fora substituída por uma solidão absurda.
- Se vierem vê-lo, correrei para avisá-lo, Michell. – Falou baixinho.
Ele acenou com a cabeça e voltou a andar – agora cabisbaixo – pelo pátio, junto com os outros... loucos.

Não podia acender o cigarro, mas colocava-o apagado mesmo nos lábios, só para lembrar-se da sensação de fumar. Antes de entrar no sanatório, tinha dois piercings, lá dentro tivera que tirá-los, já que alguns pacientes não gostavam deles e metiam-lhe a mão na boca para arrancar.
Estava num estado deplorável, aquelas malditas roupas brancas irritavam-lhe todos os dias... Se ao menos soubesse o motivo de estar ali.
O problema era que Michell ouvia vozes, as ouvia o tempo todo, elas estavam sempre opinando sobre o que deveria ou não fazer... Mas o motivo de estar ali não eram as vozes.
Sabia que não.
Michell era homossexual desde que se lembrava, quando seus pais sumiram e ele teve de morar com os tios, coagira seu primo que era três anos mais novo a ficar consigo... Hoje em dia tinha dezenove e o primo dezesseis. Ainda mantinham uma relação digamos... instável, já que depois de tanto tempo não se contentava só com o garoto, que era loucamente apaixonado por si.
Suspirou.
Não era seu primo que queria receber em visita, era outra pessoa... E sabia que ele não poderia vir.

Caterine sentou-se e procurou os papéis de Michell, sempre que podia, relia a história daquele menino, que era como um filho para ela.
Achou os registros e voltou a análise, as palavras eram bem claras, frases chocantes, mas que ao mesmo tempo deixavam-na confusa.
Morte dos pais.
Perda de memória.
Tendências homossexuais.
Abuso do primo menor.
Era uma história muito complexa. Colocou as mãos na cabeça e começou a falar para si mesma, em voz baixa.
- Quatorze anos, chega em casa e encontra os pais mortos... Desmaia. Acorda no outro dia na casa de seus tios e não lembra de nada relacionado ao ‘sumiço’ de seus pais. Mora com os tios, começa a abusar do primo de onze anos, revela as tendências homossexuais mas esconde dos tios, termina o ensino médio dois anos depois, entra na faculdade mas desiste logo por alegar estar ouvindo coisas que não deveria. Esquizofrenia de nível baixo, preconceito.
Bateu o rosto de leve na madeira da mesa.
-Vive até os dezoito anos escondendo a doença, tios descobrem, mandam-no ao sanatório. Piora crônica. Quarenta e duas tentativas de suicídio. Sai do sanatório por já estar aparentemente normal...

“E o que fez enquanto estava fora daqui, Michell?”
“Ora doutora... O mesmo que sempre fiz, fiquei com meu primo, tentei estudar, trabalhei um pouco...”
“E porque voltou para cá?”
“Porque meus tios me viram conversando com ‘elas’ novamente.”
“Elas?”
“As vozes, Doutora. Já lhe falei delas...”
“................................ “
“Mas fora isso aconteceram algumas outras coisas.”
“Fale disso.”

Lembrava claramente do que ele tinha dito... Primeiro começou a falar de um rapaz que havia conhecido, perguntara-lhe como... E ele respondeu naturalmente que ele o havia abusado.

Eu estava caminhando, era fim de tarde e eu estava andando como sempre fazia... Não lembro direito o nome da rua, mas sei onde fica. Lá tem um prédio abandonado, quer dizer... Não bem abandonado, já que é lá onde eles moram... Eu passei na frente do prédio e ele saiu lá de dentro, segurou-me pelo pulso, não o conhecia. Começamos a discutir e dei um soco no rosto dele, mas ele revidou e me imobilizou... Arrastou-me para dentro do prédio e transamos, mas eu fui o passivo, nunca tinha sido, não quero que ninguém saiba.
Depois fiquei com ele, passamos quase duas horas conversando após o abuso e dormimos na mesma cama, abraçados. Não entendi direito o que significava, mas sempre que eu saio daqui, Doutora, vou vê-lo, mas sei que ele não pode vir aqui...

Ficou martelando aquilo na cabeça, não sabia quem era ele nem fazia ideia do porque de não poder visitá-lo, queria deixar o Michell um pouco mais feliz, já que da última vez, estivera muito magro e abatido.
Bateu a cabeça novamente na mesa e voltou a sua postura de Doutora – e como aquilo soava pesado... – guardando os papéis do ruivo, pegando os de seu próximo cliente e indo vê-lo.

Depois de alguns dias lá dentro, o rapaz parecia novamente são, apesar de até sua doutora saber que era só questão de tempo para que ficasse trancado lá dentro indeterminadamente, já que estava perdendo as expressões muito rápido.
Acenou parta todos e saiu pela porta, rumando de encontro a ele, que já sabia onde encontrar e que tanto esperava ver.

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