Primeiro foi uma barata. Uma daquelas bonitas que sempre tem que aparecer na casa da gente cedo ou tarde, uma barata grande, cascuda, que mais parecia um besouro reluzente por causa de suas cores berrantes.
Eu não tinha mais de seis anos. Lembro que meus pais haviam saído de casa para comprar alguma coisa, já faz muito tempo, os detalhes escorrem da minha mente como areia desce pela ampulheta. Eu estava andando até o quarto deles e na passagem do corredor, exatamente no portal ela estava lá.
Uma mistura de vermelho, laranja, amarelo e preto, redonda... Deveria ter mais de cinco centímetros, achei que estava morta e olhei-a com um ar pesaroso. Pobrezinha, tive pena. Estava com o casco para baixo e as patinhas engraçadas para cima... Eu me perguntava como teria morrido...
Não gostava de baratas, na semana anterior uma havia pulado sobre mim e eu tinha me debatido até que ela saísse voando. Tirei meu tênis e a acertei, esmagando-a contra a parede, deixando nela uma marca mais escura de ‘Olá, matei uma barata aqui!’.
Depois de rezar pela alma dela, levantei-me, entrando no quarto de meus pais e subindo na cama deles, pegando um dos travesseiros mais fofos para deitar acomodado nele, na sala de estar enquanto assistia documentários sobre animais ou fantasmas. Deixaria a falecida baratinha inerte e mostraria para a minha mãe quando ela voltasse.
O problema foi que quando eu estava prestes a sai do quarto pelo mesmo portal embaratado e dirigi meus olhos à falecida, suas patinhas se moveram e vi que ela estava tentando se virar e tomar seu caminho. Joguei o travesseiro para a cama e coloquei as mãos na cabeça. Esmagar aquele inseto deixaria toda a casa suja de seu suco interno, afinal era um bicho roliço. Estremeci dos pés a cabeça enquanto a pobre barata lutava por liberdade e se debatia. Queria virar-se...
Eu não iria deixar.
Subi no armário da minha mãe e lá em cima peguei um daqueles enormes frascos de veneno. O sacudi em desespero e apontei a saída de veneno para a barata, a uma altura de meio metro... Aquilo cairia como chuva ácida em seu corpo encarapuçado. Apertei com fé o gatilho da minha arma e a chuva assassina começou a cair por seu corpo colorido. Até aí tudo bem, a deixaria morrer aos poucos como o humano porco que era – e sou até hoje! – entretanto precisava assistir a pequena criatura agonizar. Primeiro as patinhas se moveram mais rápido... Depois eu ouvi o grito – sim, um grito – vindo sabe-se lá de onde, já que não sei se baratas tem cordas vocais.
Era um som agudo e arranhado, semelhante a quando passam unhas muito compridas na lousa negra, no quadro de giz. Ela se retorcia e gritava e eu estava ali parado... Olhando como um assassino...
Naquela tarde eu senti três coisas... Durante o assassinato, claro.
Primeiro senti muita pena dela, pensei até em sua possível família, pensei em tudo... Senti muita pena da pobrezinha. A segunda coisa foi o molhado em meu rosto, o choro que não se conteve enquanto estava eu de pé olhando para aquilo. As lágrimas vertiam de meus olhos, lavando minha pele com seu gosto salgado, tentando me purifica.
A terceira coisa foi minha calça ficando molhada. De medo.
Depois deste fatídico grito e da pobre barata que nada havia feito a não ser lutar por sua vida, eu comecei a ter pesadelos todas as noites... E todos os dias, contava para meus pais cada um deles.
Nunca mais tive um sonho considerado bom e fui crescendo com a mente perturbada – tenho consciência disso – por causa de algo tão bobo quanto o grito de um inseto.
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Nossa, eu amo muito o Charlie.
Ele é perturbado pelos próprios pesadelos desde este acontecimento da pequena estória acima. Mas é uma graça de toda forma, apesar dos traumas...
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