sábado, 5 de novembro de 2011

AIDS

Eu vi como suicídio é uma palavra boba. Minha vida eram cacos e não parecia ter oportunidade de se reerguer, mas aconteceram algumas coisas, importantes que me fizeram mudar de idéia. Mesmo sabendo que o fim estava ali na frente, eu acreditava que havia salvação. Que o que eu tinha feito de ruim poderia ser consertado.


Minha infância foi difícil, cresci no meio de marginais em bairros afastados do centro, era uma comunidade pequena, quase uma favela onde todos se conheciam. As pessoas sabiam tudo sobre todos e os boatos se espalhavam facilmente. Quando disse para minha mãe que era homossexual, ela pareceu querer me julgar, me exilar apesar de não tê-lo feito. Fiquei feliz, porque duas semanas depois ela já parecia ter aceitado aquilo, no entanto eu comecei a ficar doente, e fui obrigado por ela (por causa da minha condição de gay) a fazer o teste do vírus HIV. Para minha surpresa, eu estava infectado. Eu era virgem, não entendia como aquilo teria se dado, pelo menos até lembrar-me de uma transfusão num hospital do bairro por causa de uma perna quebrada, no fim do ano anterior. Ali passei por uma época horrível, fui deserdado, meus pais não queriam sequer olhar nos meus olhos, minha irmã era a única que me dava apoio, apesar de até ela ser proibida de me ver. Tentei me matar muitas vezes, fiquei pior extremamente rápido, tive que começar a dividir apartamento com mais quatro amigos. Tive que me levantar, afinal não havia morrido ainda. Foi após levantar, em uma tarde bela, numa consulta de rotina que o encontrei. Bobagem, o tirei do hospital porque estava chorando, queria fugir dos pais. Sua condição também era frágil. Abri os braços para ele e nos tornamos íntimos tão rápido que quase não senti, só percebi como estava meloso e romântico no dia dos namorados, quando fui procurar um presente para ele. Nesse dia, parei e me sentei num banco, na rua, refletindo sobre o que tinha se passado. Meu menino, meu anjo, meu Matthews estava em um hospital. Câncer. As lágrimas foram impossíveis de conter, mas logo em seguida eu sorri, doce. Estava em um estado tão sublime, com uma pessoa tão perfeita que não podia chorar. Eu o amava tanto, o amo tanto que só pensar em nossa condição já me parecia um absurdo. Éramos pessoas comuns. Podíamos amar como pessoas comuns. O tocava com tanto cuidado, com tanto carinho. Se eu pudesse olhar para seus olhos e dizer tudo o que sinto, sei que choraríamos. De felicidade e medo.
“Amor...” Eu o olharia com meus olhos negros e iria sorrir em meio às lágrimas. Meus braços o envolveriam carinhosamente, afagando suas costas. Os lábios se encontrariam de forma singela, doce. O beijaria como da primeira vez, como da última. Seria otimista, o levantaria e brincaria com ele, lhe faria cócegas, lhe faria rir. Faria-lhe sentir cada palpitar no peito como se fosse o último, faria os ritmos de nossos corações se igualarem.
“Só penso em você.” Sentado naquele banco, fiquei ciente de como sua existência era o bastante para mim. Peguei meu celular e liguei para o dele, estava desligado, mas havia a opção de deixar uma mensagem de voz.
“Te amo, Matthews. Te amo e quero que fique comigo para sempre. Quer namorar comigo?” A opção de apagar a mensagem surgiu e rindo nervoso, a apaguei. Engraçado como eu nunca fui confiante nem era agora. Coloquei o celular no bolso, toquei no presentinho que o havia comprado e corri até o ponto de ônibus, tomando-o para ir ao hospital. O pediria cara a cara. Se pudesse voltar atrás o pediria antes que me pedisse, porque no fim daquele dia, dentro do quarto frio e branco de hospital onde nos tornamos um, quem me pediu em namoro foi ele. E me senti tão sensível, tão quente por dentro, tão confortável... Que antes de viajarmos, mês que vem, eu pretendo pedi-lo em casamento.

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