sábado, 5 de novembro de 2011

Dói...

Pela milésima vez jogou a bituca de cigarro pela janela. Era tão difícil conseguir conviver com tudo aquilo... As pessoas eram todas diferentes e geralmente não o levavam a sério. Era porque tinha uma aparência inofensiva? Comum? Era porque era chorão e não agressivo?
Mesmo que tentasse não conseguia ser diferente do que era na verdade. Fechou os olhos escuros cobertos pelas lentes pesadas dos óculos e relaxou na cama, fechando um livro de capa laranja que lia e jogando-o de lado, no chão. Desde pequeno seu sonho foi fazer as pessoas em volta felizes, por isso era obediente e era tão bobo. Fazia todos os favores que lhe eram pedidos, respondia exercícios para os amigos... Mas nada daquilo o fazia realmente feliz.
Costumava dizer que sua felicidade dependia da dos outros, e era verdade... A única coisa que nunca pode fazer foi amar alguém.
Pelo menos até algum tempo...
Com treze anos, Hansel adquiriu um passatempo novo, ele impedia as pessoas de se matarem. E sorria tanto depois em meio as lágrimas quando via que dera certo.
Conheceu uma menina que estava a ponto de embarcar ao mundo das trevas... Ela estava irritada com tudo e com todos, era uma boba, não tinha motivos, mas queria morrer. Ele não deixou é claro...
Passou semanas aconselhando ela, fazendo carinho em seus cabelos, rindo sempre que ela ria e chorando quando dizia que iria desistir. Não... Havia muita coisa para ser conquistada.
Conseguiu e passou algumas semanas se recuperando. Os olhos fechados derramavam tantas lágrimas que até parecia que sentia alguma dor, mentira, estava feliz, realizado... Dedicaria sua vida a aquilo.
No ano seguinte conheceu mais uma garota – a anterior leva sua vida até hoje. Diferente da anterior, esta outra não queria morrer, mas não cuidava de si mesma, a luz de seus olhos havia sumido. Ela disse que gostava dele como tantas outras haviam dito antes... Ele não podia corresponder, não estava plenamente feliz... E buscava a si mesmo, a sua felicidade, espalhando alegria em meio aos caminhos. Ela tentou se matar e ele a segurou, disse que não conseguiria nada assim, chorou por ela.
Conseguiu novamente... Mas depois de um tempo, quando estava sozinho, as coisas começaram a ficar ruins. Não conseguia manter o sorriso no rosto. Só sorrir não bastava, não tinha pontos de apoio, não tinha nada. Não podia falar com os amigos... Eles nunca entenderiam.
Contrariando todos os seus conceitos e tudo o que dizia ele começou a se cortar, cada corte era um pouco de si mesmo, um pouco de seus problemas que iam embora com o sangue. Mas... Mas ele não agüentava fazer isso, era como se estivesse morrendo aos poucos, as coisas não podiam acabar ali. Nada tinha fim, ele não podia largar tudo o que acreditava assim, num piscar de olhos.
Foi quando o conheceu. Um acaso mágico... Logo de início começaram a conversar de vários assuntos, a intimidade veio com o passar do tempo. Enquanto Hansel se cortava, aquele outro garoto também o fazia, eles dividiam sentimentos, dividiam amores... Apaixonaram-se. Foi algo que nasceu extremamente rápido, ele sabia que tinha sorte por ter encontrado aquele outro rapaz, ambos juntos se completavam, um tinha o que faltava no outro.
E se amavam tão intensamente, de forma tão calorosa... E tão singela.
Mas como disse, a história nunca acaba... E não acabou aí, eles brigaram por um motivo tolo e passaram um bom tempo sem se falar. Hansel se mudou, foi para outra cidade se martirizando enquanto lembrava-se do outro rapaz. Algumas semanas depois recebeu um telefonema. Ele tinha... Se matado.
Tinha certeza que nunca chorara tanto na vida inteira, se odiava por ter salvado tanta gente e ter mandado quem amava para um destino tão trágico. Não chegou a tempo do velório, só pode ir ver seu túmulo depois. Sentou ao lado da lápide e encostou a cabeça nela... Chorando com pesar, quieto e apertando as rosas vermelhas nas mãos, o buquê enorme.
Pedia desculpas, batia de leve a cabeça no túmulo e se desculpava. Se desculpou por várias horas a fio, chorando e declarando-se para ele. O amava tanto... Uma... Uma relação que começou de forma tão bela, porque tinha que terminar assim?

Ao chegar a casa, sujo de terra e lágrimas... Ele foi até seu quarto, jogando-se na cama e pegando atrás dela uma pequena caixa de madeira, com suas lâminas tão bem conservadas. Não tinha mais sentido continuar. Os cortes começaram superficiais, mas aos poucos ele forçava as lâminas com mais e mais força, perdendo mais e mais sangue, se condenando aos poucos. Quando estava a ponto de desmaiar sonhou acordado.
Ele... Chegou perto de si e segurou seu rosto, beijando-lhe os lábios carinhosamente e negando com a cabeça. Perguntou o que estava fazendo e Hansel não conseguiu dizer nada... Ele riu um pouco mais alto, fez carinho nos cabelos do garoto e tomou suas mãos, beijando seus pulsos e pedindo para que parasse. Aquilo estava errado.
Acordou no hospital com os punhos enfaixados, o médico lhe disse que quase morrera e que fora salvo pela mãe. O rapaz olhou para os próprios pulsos e voltou a chorar.
Ele lhe disse que deveria continuar. Que o salvara para continuar... Hansel superaria, demorou alguns anos, mas superou... E hoje, hoje ele vive para fazer os outros viverem.

Acendeu mais um cigarro e tragou preguiçosamente, abrindo os olhos e sentindo uma lágrima solitária delinear seu rosto. No criado mudo ao lado, um retrato Dele. Acreditaria para sempre que era seu anjo... E honraria seu coração. Tirou os óculos e passou as mãos nos olhos, suspirando.

Ainda... Tinha muito para viver.

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