sábado, 5 de novembro de 2011

Mime...

De alguma forma aquele silêncio me deixava indignado. Eu levantava, coçava os olhos, banhava meu corpo e mesmo assim aquele silêncio não saía de junto de mim. Não importava o quão alto os outros artistas do circo falassem, cantassem ou gritassem. Eu só ouvia silêncio.
. . . 
Estava triste naquela manhã gélida. O sol brilhava de uma forma pálida, a pino no céu, quase hora do almoço. Estava triste porque mais uma vez tinha me visto no espelho durante a manhã, antes que o dia fosse luz. Meus olhos estavam cinzentos, como eram desde meu nascimento. Não entendia, nunca fui capaz de entender porque eles tinham aquela cor morta, pálida, aquela cor horrível. E porque um palhaço como eu, que deveria ser a encarnação das cores devia ter os olhos mortos? Daí surgiu meu fascino. Demônio, como era – e fui desde até antes de nascer – precisava me alimentar de algo sórdido, e minha escolha foram os olhos. Aqueles cheios de cores, lindos. Mastigados, derretiam entre meus lábios e enchiam meu ser de felicidade. Era a inveja fazendo efeito, cruel. Nasci na rua, naquele palco de demônios. Meu pai fugira com a minha mãe quando eu ainda era um recém-nascido, não os culpo, queriam ser felizes. Me deixaram na rua, onde cresci cuidando das outras crianças, protegia os mais fracos e tentava subjugar os mais valentes. Tudo pelas crianças. Algum tempo depois me traíram, me venderam por um punhado de notas de valor baixo. Sofri muito até ser comprado pelo meu antigo Mestre, o que me deu o sobrenome Dell’amore. O que me trouxe ao circo e me treinou como o palhaço que deveria ser. Naquele circo de demônios todos eram felizes, viviam com sorrisos estampados no rosto e eu adorava fitá-los. Subia em uma caixa mais alta, ou me trepava nos tecidos das apresentações noturnas para olhá-los de cima. Tanto, que semanas depois me deram o nome de Ágape, O Amor que Devora. Nunca fiz jus ao nome, talvez esse fosse somente parte de minha origem. Como palhaço, não amei, cresci como um pirralho maroto, que adorava fazer travessuras, que deixava mais e mais pequenos demônios cegos, diariamente, arrancando-lhe os olhos. Época de ouro; Não me julgavam, hoje tenho que tomar mais cuidado com minhas atitudes. Não que eu tenha me tornado menos travesso, claro. Risos. Naquela manhã eu estava sem fome, sem ânimo, sem nada. Só queria chutar a areia que havia entrado na lona do circo e correr, me esconder antes que fosse incumbido da árdua tarefa de varrer o picadeiro. Sou palhaço, não empregada. Saindo da lona, já com a maquiagem branca e o batom vermelho estampando a cara, já com os cabelos azuis e compridos ladeando o rosto, fui verificar os animais. Lembro de ter conversado com alguns cavalos, de ter xingado outros tantos pombos – do mágico! – que faziam questão de cagar em toda parte. Além disso, acho que só verifiquei outros dois coelhos, amigos de longa data, que tinham os pelos alvos e os olhos cor de rubi. Depois, caminhei até as carroças carregadas de feno, ouvindo ao longe alguns gritinhos, pareciam crianças brincando. Arqueei as sobrancelhas tão azuis quanto o resto de meus cabelos e fui andando até mais perto, por pouco não pisando em uma mão franzina, magrinha de um pequeno garoto que estava metido sob a carroça de feno. Arregalei meus olhos mortos e depois de apoiar as mãos na cintura, inclinei a parte frontal do corpo para frente, os cabelos arrastando de leve no chão de terra, de poeira seca.
“Que há, menino?”
Ele me respondeu com um aceno para que eu ficasse calado, parecia com medo. Sorri, mostrando meus dentes pontiagudos e brancos – talvez um pouco amarelados, por falta de cuidado. Fazer o que? Sou palhaço, não dentista. Voltei a minha postura, fuzilei uns outros molecotes que procuravam pelo pequenino acanhado sob a carroça e saí correndo na direção deles, gritando “XÔ! XÔ!”, os espantando como se fossem galinhas. Como se estivessem tentando roubar meu milho. Sério, minhas comparações são terríveis. Eles não pareceram querer ir embora, por isso usei de um truque verdadeiramente sujo, meti medo neles, saíram correndo como se fossem garotinhas depois de eu mostrar-lhes os dentes e prometer que arrancaria a cabeça de cada um deles, fá-los-ia meu almoço. Mentira, claro. Não a parte do almoço, afinal vi que o maior deles tinha olhos azuis muito lindos, então se voltassem, faria questão de arrancá-los para minha coleção. Verdade que posso me alimentar de carne humana, sou antropofágico como todos os outros demônios que dividem espaço comigo, entretanto, tenho uma queda quase um penhasco de queda por olhos. Voltei depressa, quase saltitando para onde estava o menino franzino e acanhado. Não dei tempo para que levantasse, puxei-o pelos braços magros e virei seu corpo na direção do sol, levantando-o com cuidado. Juro que vi o paraíso. Meus olhos cinza encararam o menino loiro, perfeito – talvez um pouco magro. Ele tinha olhos de cores diferentes. Oh inveja, os olhos dele eram diferentes, um azul e o outro verde, enquanto os meus eram cinzentos. Apaixonei-me. Ele estava vestido em farrapos. Abracei-o com todas as minhas forças e entre minhas próprias lágrimas – de emoção, deduzia eu – o levei para dentro do circo. Nossos destinos estavam entrelaçados, eu tinha certeza. Tanto que depois desse dia, passei a amar o silêncio, presente do meu pequenino mímico.

Nenhum comentário: