sábado, 5 de novembro de 2011

Mais uma... foto, Aoi

Antigamente, durante esse horário eu estaria cuidando de lavar o corpo de minha próxima vítima. Anestesiada e presa em uma haste, mantida de pé, depois de livrar-me dos pêlos de seu corpo começaria a cobrir-lhe de cera. Cuidadosamente, carinhosamente.
Mas hoje eu não fazia isso.
Pois sim. Antes eu era um assassino frio, doentio que matava para transformar o mundo na loucura que eram meus sonhos. Unicamente porque os achava belos, depois de tanto tempo os tendo compulsivamente. Precisava que meus sonhos, pesadelos ou coisa parecida, se tornassem realidade. Agora, eu estou deitado ao lado de um rapaz fisicamente parecido comigo, meu amante, meu primeiro e único amante. Bobo, talvez até apaixonado, tiro inúmeras fotos de seu rosto vencido pelo sono. Seu rosto assim tão frágil, seu corpo tão belo. Sorrio enquanto faço isso, e faço isso a pelo menos três semanas. Inclusive, me considero um stalker, por causa dessa obsessão boba. Mas é melhor do que matar gente, ou não é? Um close em seus lábios e um flash. Mais uma bela foto para a posteridade. Paro e deixo a câmera de lado, amanhã sei que estarei sorrindo ao lhe contar que passei a madrugada inteira fotografando seu rosto mais uma vez. Ele vai me julgar doente, bobo, mas o adoro do mesmo jeito. Rindo, lhe mostrarei as fotos em uma apresentação de slides e ele ficará envergonhado, sei que sim. Apesar da casca grossa, qualquer um fica sem jeito ao saber que é assim, tão bem admirado, quase colocado sobre um pedestal. E é assim que o vejo, meu modelo favorito, pseudo-irmão... Uma estátua perfeita, a criatura mais sublime que meus olhos já viram. E pensar que antes... Que durante as minhas matanças eu o considerava um rosto entre os demais. Ele tem conteúdo demais para ser transformado em uma coisa que não se move, que não fala. Um último flash e meus dedos se encaminham até seus cabelos, afagando-os. Abaixo meu rosto para capturar seus lábios em um selinho singelo. Levanto e passo as mãos no pijama, indo até a cozinha. Ainda é madrugada, preparo seu café da manhã em segredo. Tudo o que faço durante a madrugada é em segredo. Como o deixaria saber de minha sensibilidade para com seu corpo? Para com seu rosto sonolento? Café pronto, tomo um banho, visto roupas casuais e vou limpar a casa por cima. O apartamento é dele, não quero voltar a morar naquele buraco cheio de estátuas, cuja beleza não se compara a do meu modelo predileto. Tiro a poeira, limpo alguns móveis, pego minha carteira e vou comprar algo. Segredo. Não gosto de revelar a ele o que faço, meus rituais quando não estou na frente dele. Um dia, quando vier me observar pode ser que descubra tudo, toda a doçura guardada a sete chaves... Mas por hora ando pela rua, em direção a floricultura que freqüento todos os dias. A mulher me olha com um sorriso carinhoso, deve achar que a pessoa com quem divido a vida é bastante sortuda, afinal... Compro flores para por sobre a mesa, margaridas e sempre, todos os dias uma única rosa. Esta rosa é embrulhada separada das demais flores, num plástico transparente e enfeitada de forma sutil. Pago pelas flores e ainda compro dois ou três caramelos. Volto para casa só com as margaridas, a rosa é deixada sempre em uma praça, perto do apartamento, presa em uma árvore de galhos altos. O que vale é a intenção, não preciso entregá-la a ele, sou meloso demais às vezes. Já dentro da casa dividida com meu modelo, coloco as margaridas em um vaso sobre a mesa principal, me livrando dos cadáveres das flores da manhã anterior. Sento em uma das cadeiras, apoio o rosto nas mãos, sobre a mesa e fecho os olhos.
Só preciso esperar ele acordar.

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