Eu tinha certeza de que a felicidade não havia sido feita para mim. Todas as minhas tentativas de ser feliz haviam sido falhas, afinal era eu o filho da união macabra de uma criatura das trevas com uma humana pura. Não podia dar certo, julgava eu.
Ah noite... Vinha ela, e junto, a certeza de que mais um dia terrível se seguiria. As pessoas que amei pouco a pouco foram se mostrando monstros. Humanidade miserável. Eram todos tolos, tolos e humanos. Alguns demônios, algumas almas bondosas, mas nunca quando se chegava perto o bastante. Estava a ponto de desistir de minha existência frágil, quase a ponto de me entregar aos planos macabros de meu pai, já que nem meu filho, nem meu esposo me davam ouvidos, eles não queriam mais me ver. No entanto me surgiu uma luz. Uma bela luz de olhos verdes e cabelos longos, encaracolados. Ele diferia tanto de mim no modo de ser, era tão puro e ainda duvidei de seus propósitos. A criatura mais bondosa de todo esse mundo podre. Suas frases soavam como música, como carícias, era doce, me acalentava e não pedia nada em troca. E me sentia tão terrível por não lhe retribuir. O que poderia fazer-lhe além de dizer o quanto era perfeito? Além de elogiá-lo? Eu ainda estava preso a um humano por aqueles laços, e sabia eu que meu pai, aquele tirano, só queria que cedesse, que me entregasse ao rapaz tão perfeito. Ele acertou. Eu não podia resistir ao seu sorriso, ao seu rosto fino coberto de sardas graciosas, aos seus dedos macios tocando meus cabelos. Mal via a hora de inclinar-me e roubar seus lábios, que deveriam ser tão doces quanto suas palavras. Alongar minhas presas e fincá-las em seu pescoço, roubando um pouco de vida, um pouco do amor que sei eu, lhe pulsa abundante pelas veias. Ah Samuel, se soubesse como penso, se tivesse ciência das barbaridades que imagino enquanto velo seu corpo a noite. Sou um vampiro, pertenço às trevas, mas você parece não se importar, pelo contrário, me parece cada vez mais preso, amante de um homem, de um monstro que nem te pode corresponder. Tolice a tua, com teu rosto e jeito, podes fazer qualquer um cair. Porque como perfeição teria que aparecer a mim? E eu sorrio, porque sei que cada vez que sorrir você vai estar mais perto, admirando meus defeitos que te apetecem tanto. Não quero entender seus gostos, só quero que não saia de perto de mim nunca, que espere até que eu cuspa no rosto daquele humano e seja todo vosso. Lançar-me-ei ao teu coração, puxarei cada resquício de humanidade que tens e te levarei até meu castelo, já que sou tão poderoso quanto é meu pai. Mesmo que não seja tirano, mesmo que eu não seja cruel posso ser por ti, matarei e mataria mil homens se fosse preciso, já que se apaixonou por minha imagem e pelo monstro que sou. Agora construo fortuna e possuo terras, terei meus lacaios e tu serás meu. Melhor, será minha rainha, dividirei tudo o que possuo contigo e cuidarei para que permaneça tão puro quanto és, mesmo que eu, infante como sou, tenha que roubar toda a maldade do mundo com minhas mãos. E mesmo que pareça um monstro, como pareço agora enquanto te escrevo isso, perto de ti serei o mesmo Shiro, a luz branca cujo núcleo é negro, o vampiro de aparência infantil que te ama.
Tanto quanto é amado por ti.
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